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Cultura

Cinema - Anos Incríveis

Entre a rebelião e a caricatura

por Matheus Pichonelli publicado 02/10/2013 15h04, última modificação 02/10/2013 16h30
A sátira francesa de uma juventude envelhecida que quer tomar o poder com uma câmera na mão e nenhuma ideia na cabeça. Por Matheus Pichonelli
Télé Gaucho Anos Incríveis

Cena do filme "Anos Incríveis"

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Não só pelo fato de Anos Incríveis (Télé Gaucho), filme de Michel Leclerc estranhamente escondido em uma sessão única de horário ingrato de cinema, ser inspirado na história de um casal que realmente se conheceu durante os protestos de uma trupe unida contra tudo isso que está aí – estava, no caso, pois a história se passa na França de Jacques Chirac. Mas basta trocar os nomes, os cenários, os sotaques e os alvos para observar, com cuidado, os contornos de uma caricatura de fundo universal.

O filme conta a história de um grupo de amigos, idealistas e pretensamente revolucionários, que tenta emplacar seu canal de televisão independente na programação oficial. São outsiders tentando arrombar as portas do mainstream a machadadas. O argumento é o combate a uma ordem vigente (e abrangente): o lixo da programação da principal emissora de tevê local, a política anti-imigração do governo francês, os fabricantes de sutiãs e maiôs e os desentupidores nasais. Da apresentadora de audiência estratosférica, uma versão local de Márcia Goldsmith com Luciana Gimenez, ao presidente francês, todos são fascistas até que provem o contrário. Devem ser combatidos com uma liberdade duvidosa, nas palavras de uma das líderes do coletivo que supostamente zela pela horizontalidade: naquela tevê, avisa ela, todos são livres para cobrir qualquer assunto. Menos o que é reaça, os desfiles de moda e mais uma lista interminável de assuntos-tabus.

Embora caia aqui e ali em uma satirização recalcada, o filme consegue arrancar risadas ao retratar uma espécie de Incrível Exército de Brancaleone das ruas e suas contradições. Por exemplo: um dos mais afetados ativistas, um quarentão de jaqueta empoeirada, pede o rompimento com o mundo, mas não se envergonha de dizer que ainda é “temporariamente” sustentado pelos pais. O casal que lidera a trupe defende com vigor o diálogo aberto e a democratização do debate, mas passa o filme aos tapas e berros por discussões acerca da forma, jamais do conteúdo, das suas ações. O casal chega a distribuir cotoveladas quando vê o status de macho e fêmea-alfa ameaçado e admite: ali todo mundo é livre para dar opiniões, desde que concorde com eles.

Assim, com câmeras na mão, eles vão para o miolo dos protestos para denunciar o autoritarismo e o conservadorismo (reais) do governo Chirac. Infiltram-se também em manifestações contra imigrantes e contra aborto. Nestas ocasiões, como partem de premissas pré-moldadas, chegam espetando o microfone na boca dos alvos. Gritam e enfiam o dedo na cara dos populares que tentam expor uma opinião que não é a deles. Ao se autoproclamar detentores do monopólio da justiça e da liberdade, recorrem ao mesmo autoritarismo que buscam combater: não há, na ação, espaço para teses, antíteses e sínteses, apenas para gritos e o esculacho. A escola constrange-que-eu-gosto do Pânico na TV e congêneres pseudojornalísticos teria na trupe um adversário à altura.

No filme, essa ambiguidade de princípios é encarnada por Victor, personagem de Félix Moati. Jovem aspirante a cineasta, ele aceita trabalhar como estagiário da Márcia Goldsmith local, de quem, apesar do desprezo, se aproxima e se deslumbra. Ao mesmo tempo, colabora como cinegrafista da tevê independente. Transita nos dois mundos, e ingenuamente serve como bobo útil de dois sistemas que somente aparentam falar linguagens diferentes. O grupo, afinal, luta para cavar seu espaço a marretadas e, quando tem finalmente a oportunidade de mostrar a que veio, descobre que não tem muito a dizer – ou que o que tem a dizer não é tão diferente do que já foi dito. Na TV Pirata, a violência contra os manifestantes, sujeitos e objetos da reportagem de rua, é anunciada pela apresentadora com a mesma espetacularização de uma atração comum da seção de entretenimento. Se o meio é a mensagem, eles parecem operar exatamente no mesmo campo (a diferença é que a câmera é mais velha). Em outras palavras: o programa vendido como independente é tão raso como o alvo a ser combatido. No lapso entre um e outro, sobram ataques gratuitos e faltam tutano, embasamento e rumo.

(Momento spoiler: há pelo menos duas cenas impagáveis. Uma, quando o grupo se perde na cidade e entra em desespero, olhando para o chão e tentando se localizar a partir de uma mapa oficial, sem notar, ao fundo, a Torre Eiffel – em tese, a única bússola possível para qualquer desorientação na capital francesa; outra, quando uma das personagens, descrita pelo namorado como uma menina “frágil, caprichosa e instável”, pula de alegria quando é pautada para cobrir a implosão de um prédio popular e é advertida pela chefe: “É a cobertura de uma tragédia, não uma viagem para a Disney”).

Lentamente, o filme cava fundo ao mostrar o estado de desorientação de uma juventude envelhecida que, ao menos no caso francês, não soube se bancar como uma alternativa viável de projeto de poder. Mais ou menos como o mesmo diretor havia feito em Os Nomes do Amor, de título tão mal traduzido quanto Anos Incríveis, sobre a confusão entre convicção ideológica e rebeldia de butique de um país emparedado, no início dos anos 2000, pelas opções políticas disponíveis: a centro-direita de Chirac e a extrema-direita de Jean-Marie Le Pen.

E o Brasil com isso?

Bom, o Brasil teve o seu Maio de 68 em junho de 2013. Pelas ruas, muitos recados foram dados – ninguém mais aceita a violência policial, os péssimos serviços de transporte, educação e saúde e os baixíssimos salários de professores, parte deles em pleno combate (mais do que legítimo) nas ruas do Rio de Janeiro, onde junho jamais acabou. Neste contexto de luta e conquistas em aberto, um filme rodado do outro lado do Atlântico parece servir, sem essa pretensão inicial, como um vaticínio: "Cuidado: a negação pela negação é, em si, autoritária". Pois há uma distância brutal entre o épico e a caricatura do épico, entre o gênio e a caricatura do gênio, entre a rebelião e a caricatura de rebelião – como há entre Maio de 68 e a Revolução Francesa. A construção desta distância se chama História. Ignorá-la é o primeiro passo de um aprisionamento permanente.