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The Observer

Ela se foi, mas não a esqueci

por The Observer — publicado 23/12/2011 09h10, última modificação 23/12/2011 14h50
Mark Ronson, produtor musical e grande amigo de Amy Winehouse, escreve sobre a cantora, morta em 2011
amy

A cantora, após o sucesso do segundo disco, na Londres de 2007. Foto: Matt Dunham/AP

Por Mark Ronson

 

Parece macabro, mas eu adorava visitar Amy na London Clinic. De vez em quando ela se cansava da bebida e se internava nesse hospital particular a 5 minutos de táxi de Camden. Era sua maneira de se limpar, em seus próprios termos, sem precisar entrar em "reabilitação".

Ela ia para lá. Eu lhe telefonava. "Onde você está?" "Estou na clínica, secando." "Ah, hum, sinto muito." "Você sente muito por quê? Eu sou a idiota que me colocou nesse estado." Essa era sua atitude em relação à coisa. Amy tinha pouco tempo para emoções como pena, de qualquer modo; só gostava das grandes: Amor, Desilusão, Morte, etc.

Depois de internada, ela fazia recuperações milagrosamente rápidas. Não importava o quanto estivesse chumbada por quanto tempo, ou quão embaralhadas estivessem suas palavras quando a havia encontrado apenas três dias antes. No segundo dia naquele lugar era a velha Amy de novo, a Amy que eu conhecera cinco anos antes. Sua mente brilhante voltava, assim como seu humor cortante, e um carinho e uma simpatia maravilhosos que às vezes obscureciam nas profundezas do vício. Eu ficava em seu quarto lá durante horas e não queria ir embora, como quando você fica para dormir na casa do melhor amigo aos 13 anos de idade.

Eu a apresentei ao programa de TV "Arrested Development". Assistimos a sete episódios em seguida e ela imitava o personagem atrapalhado Gob, enquanto eu rodava pelo quarto do hospital em um Segway imaginário (você sabe, aquela estranha patinete espacial na qual todos os adultos parecem ridículos). Eu mencionei de passagem que tinha um problema no pé e ela tocou uma campainha e pediu a visita do chefe de ortopedia da clínica, e, envergonhado, eu tirei a meia e lhe mostrei minha verruga de três anos.

 

Eu pedia que ela não fumasse, mas de alguma forma ela conseguia me convencer a olhar para fora enquanto tragava um cigarro atrás de alguma porta de incêndio trancada, ao lado de algum enorme gerador com uma gigantesca placa de perigo de incêndio, que parecia que explodiria como Hiroshima se ela batesse as cinzas sobre ele.

Ela conseguia encantá-lo para fazer coisas ridículas. Há pessoas nesta terra (certamente não precisam ser famosas) que são apenas um pouco mais mágicas que as demais. E você quer estar perto delas porque a magia é um pouco contagiosa e você se sente um pouco mais especial quando elas estão por perto. Meu melhor amigo, Max, morreu há cerca de cinco anos. Ele tinha esse mesmo efeito sobre as pessoas. Talvez os mágicos brilhem um pouco mais que o resto das pessoas, por isso não precisam ficar aqui tanto tempo. De qualquer maneira, é uma droga quando eles partem.

Olhando para trás agora, é óbvio para mim que o principal motivo pelo qual eu gostava de ficar com Amy naquela clínica era porque havia tanta esperança. Na minha mente, eu pensava: "Ótimo, ela está sóbria e desta vez é para sempre. É assim que vai ser sempre, como quando nos conhecemos". Era um sonho incrivelmente ingênuo e um tanto egoísta que removia do cenário qualquer coisa pela qual ela estivesse passando, emocional e fisicamente. No entanto, era um sonho em que eu entrava alegremente cada vez que ela se internava.

Hoje me chateio ao pensar em todo o tempo a mais que poderia ter passado com Amy mas não passei, talvez porque eu estivesse saindo com alguma garota ou passando tempo demais no estúdio, porque ficar naquele quarto de hospital com Amy foram dos momentos mais mágicos que tivemos.