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Cultura

Crônica do Menalton

É preciso mudar

por Menalton Braff publicado 12/02/2015 14h09
Qual é o papel da imprensa a respeito da violência nos estádios?
Lucas Uebel / Grêmio FBPA
Grêmio

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Mas jurei tantas vezes já, para depois romper o juramento, que nem remorso mais eu sinto. Que não ia mais falar de futebol. Jurei. Mas preciso romper. Acontece que li na internet a respeito de uma decisão do Grêmio de Porto Alegre e seu maior rival, o Colorado. Os dois presidentes se reuniram e resolveram fazer uma experiência. Cada colorado que comprar um ingresso para determinado espaço do estádio tem o direito de levar de carona um amigo gremista. As duas camisas, vermelha e azul, vão ficar juntas no reduto da experiência. Se vai ou não funcionar, não sei. O que importa é tentar alguma coisa para eliminar ou, pelo menos, diminuir a violência das torcidas.

A mídia, sobretudo a televisão, vive reclamando. Que os dirigentes dos clubes precisam fazer alguma coisa. Que a justiça precisa tomar providências. E a polícia, por que não faz nada? É de se supor, portanto, que o povo que toca a mídia é contra a violência nos estádios. Você não acha?

Pois bem, quando se anuncia o encontro entre dois clubes, a partir desse momento, começam os comentários. Porque o fulano (geralmente um jogador de futebol) disse que ia quebrar a perna do beltrano. A que o beltrano prometeu quebrar o pescoço do fulano. E por aí vai. Na ânsia de ganhar audiência e aumentar a frequência aos estádios, melhorando, é evidente, a renda dos clubes, dos canais transmissores das peleias (e a própria, provavelmente) ficam insuflando um jogador contra o outro, um clube contra o outro e, obliquamente, uma torcida contra a outra. E o que acontece é culpa da polícia, da justiça, dos dirigentes de clubes, menos deles, que passaram o tempo todo instigando torcedores cujo comportamento obedece ao que manda a mídia. Dá para entender uma coisa destas?

Então eu fico aqui pensando. Se em lugar de dar curso a essa fofocalhada infame que permeia o noticiário esportivo, falando em guerra, em inimigos e coisas do gênero, por que nossa televisão não utiliza seu tempo para educar os torcedores? Para dizer que adversário não é inimigo, que o futebol não é assim tão fundamental para a vida de ninguém (a não ser para a vida daqueles que dele vivem), que esta história de separação de torcedores nos estádios demonstra o espírito selvagem que nos domina. Por que não dizer que nem sempre se ganha, mas quando se perde é porque alguém tinha de perder?

Isso me lembra de uma crônica do Rubem Braga. Em resumo, dizia o cronista, se o marido chega em casa e a esposa lhe pede que troque uma lâmpada na cozinha, ele põe uma cadeira sobre a mesa, trepa na geringonça, troca a lâmpada e, na descida, escorrega o corpo no corpo dela, aplica-lhe um beijo cinematográfico, respira fundo e diz: Eu te amo. Mas isso ninguém publica. Se ao chegar em casa, todavia, encontra a esposa beijando um vizinho, dá dois tiros, mata os dois e todos os noticiários vão falar do assunto, revelando os mínimos detalhes, ocupando um tempo e um espaço preciosos para falar de sangue.

Isso não muda nunca?