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"É preciso ler 'Minha luta', de Hitler"

por Deutsche Welle publicado 03/04/2015 09h32, última modificação 03/04/2015 12h32
Leilão fracassado de exemplares autografados traz à tona na Alemanha debate sobre proibição do panfleto-biografia do ditador nazista
Gennie Stafford/Flickr

Por Sarah Judith Hoffmann (av)

Minha luta (Mein Kampf) de Adolf Hitler é o livro tabu por definição. Banido na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial, no último dia de 2015 ele cai em domínio público na Europa. Assim, estaria aberto o caminho para sua reedição, comentada ou não.

No entanto, órgãos governamentais querem manter a proibição, alegando tratar-se de um panfleto de incitação racista. Apenas recentemente o Instituto de História Contemporânea (IfZ, na sigla em alemão) conseguiu impor definitivamente sua intenção de lançar uma edição histórico-crítica.

O misto de panfleto e autobiografia que o futuro ditador nazista lançou em dois volumes, em 1925 e 1926, voltou agora às manchetes. Juntamente com outros itens hitleristas, uma casa de leilões de Los Angeles anunciava para esta quinta-feira (26/03) a venda online de dois volumes da primeira edição, assinados por Hitler e presenteados a um dos primeiros seguidores de seu Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores.

A casa de leilões classificava o lance inicial de 35 mil dólares como "um pouco cauteloso", considerando-se que um comprador pagou 64.850 dólares por um conjunto semelhante em 2014. No entanto, a transação não se concretizou, pois a "pechincha" não encontrou nenhum comprador.

A Deutsche Welle entrevistou o sociólogo Horst Pöttker, ex-docente de jornalismo da Universidade de Dortmund e professor emérito da Universidade de Hamburgo. Para o projeto Zeitungszeugen 1933-1945, de reprodução de matérias jornalísticas da era nazista, ele comentou trechos de Mein Kampf, mas sua publicação, planejada para janeiro de 2012, foi sustada.

DW: Uma edição autografada do Minha luta foi leiloada em Los Angeles, com lance inicial de 35 mil dólares. O que o senhor acha de leilões desse tipo?
Horst Pöttker: Isso é um comércio de relíquias obsceno. Sou totalmente contra, mas também sei, claro, que no contexto da livre economia é impossível proibir algo assim.

DW: O que aparentemente se pode proibir é a publicação na Alemanha do panfleto agitador de Hitler. A partir de 1º de janeiro de 2016, caem os seus direitos autorais. Ainda assim, em meados do ano passado, as secretarias estaduais de Justiça alemãs decidiram seguir interditando a divulgação do livro. O que o senhor pensa dessa decisão?
HP: É preciso tomar cuidado com a palavra "proibir". Não é proibido ler esse livro: pode-se vê-lo em bibliotecas. Tampouco existe uma lei penal proibindo sua reedição. Mas há direitos autorais, e eles ficam no nome do autor da obra por 70 anos [após sua morte].

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados transferiram os direitos de Mein Kampf da Editora Eher para o estado da Baviera. Dentro de uns nove meses, o livro entra em domínio público. Se os secretários de Justiça deliberaram proibir a reedição em alemão e na Alemanha, eles precisam fazer uma lei que proíba a difusão. Até agora, não vi isso acontecer.

Pöttker
Sociólogo Horst Pöttker fala sobre a suposta fascinação de um texto pouco conhecido

DW: Os secretários da Justiça dizem que o crime de incitação popular basta para impedir uma publicação. O senhor concorda que o livro contém incitação?
HP: Não concordo, pois, na minha opinião, esse livro é um documento histórico. Não é um texto político atual. Podem-se declarar anticonstitucionais textos redigidos após a entrada em vigor da Constituição: o que foi feito antes são documentos históricos.

De resto, não considero inteiramente procedente o termo "panfleto de incitação popular", pois, em parte, ele não é tão incitador assim. Conhecer esse livro é útil para entender por que tanta gente seguiu o nazismo nos anos 1930 e também 1920.

O então presidente Theodor Heuss já dizia na década de 50 que se devia publicá-lo, para que os alemães soubessem como os nazistas pensavam e de que crimes eram capazes.

DW: Qual é o conteúdo de Minha luta?
HP: A argumentação que permeia o livro é a ideologia racial. Em primeira linha, trata-se da luta entre as "raças" germânica e judaica. A "raça judia" é, para Hitler, o principal inimigo, que cabe combater e exterminar, em nome da autopreservação.

Portanto, já em 1925, quando ele foi lançado, se podia saber que os nazistas planejavam exterminar a "raça judia". Até o fim da guerra, foram impressos 13 milhões de exemplares. O argumento de muitos alemães, depois de 1945, de que as pessoas não sabiam de nada, é, assim, improcedente.

DW: O Instituto de História Contemporânea de Munique trabalha há anos numa edição comentada, que, depois de muito vaivém, possivelmente vai sair no início de 2016. Não seria esta a solução certa, impedir edições não comentadas, mas permitir as comentadas?
HP: Não precisamos de uma edição histórico-crítica – muito menos de uma que custa tanta verba pública –, porque não temos necessidade de saber o que o autor Adolf Hitler queria dizer exatamente. "Histórico-crítico" também significa, afinal, compreender diferentes camadas do desenvolvimento do texto. Será que filologia textual é realmente importante, aqui? Na minha opinião, é importante um público amplo finalmente ficar conhecendo o conteúdo desse livro e desenvolver uma avaliação realista, criticamente fundamentada.

DW: O senhor mesmo trabalhou há alguns anos num comentário de Mein Kampf para o projetoZeitungszeugen, antes que ele fosse sustado pela secretaria de Finanças da Baviera. Qual era a intenção do Zeitungszeugen, ao publicar o panfleto do ditador e genocida?
HP: Nós havíamos planejado três brochuras com excertos de Minha luta, comentados por mim. Minha meta era esclarecer a respeito desse livro e responder à pergunta: por que tantos alemães o compraram e leram. E por que seguiram o que constava dele. Eu queria examinar os argumentos aparentemente atraentes de Hitler, buscando sua pertinência, e mostrar, justamente, que eles não são pertinentes, por só serem plausíveis no contexto de uma ideologia brutalmente racista.

Eu temo que, no momento em que esse livro seja lançado, ele adquira uma certa atratividade, por todos estarem munidos da falsa noção de que se trata exclusivamente de um panfleto grosseiro, onde o mal se anuncia imediatamente, por toda parte. Não se devia tê-lo mantido tabu por tanto tempo. Eu queria combater isso com a publicação dos trechos e das explicações.

DW: Em outros países, a difusão de Mein Kampf não é, em absoluto, problemática – veja-se o leilão de uma edição autografada nos Estados Unidos. Por que os alemães têm tantos problemas com o livro de Hitler?
HP: Impedir que esse livro seja lido por muitos na Alemanha, fazendo justamente uso do direito autoral, é um absurdo. Isso quase lança a tese de que os alemães são mais seduzíveis do que outras nações. Eu, realmente, torço para que os nossos políticos não sejam dessa opinião, mas sim que – 70 anos após o fim desse terrível regime – confiem que os alemães possuem maturidade suficiente.

Pode-se comprar o livro por todo o mundo em traduções; com as tecnologias digitais é até bem fácil ter acesso a elas. Não percebo o que se pretende com a planejada proibição. Quem vem da [extrema] direita, consegue o livro, de qualquer jeito.

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