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Cultura

Crônica

Durma com um barulho destes

por Menalton Braff publicado 26/12/2014 13h54
O vizinho nos presenteia com o que chama de música em alto volume, convencidos de que seu gosto é universal e que lhes somos imensamente gratos pelo presente

Não é a primeira vez que escrevo sobre barulho. Não um barulhinho destes de comprovar que estamos vivos. Vivos e audientes. Com esses convivo com tranquilidade, sou vizinho ordeiro e pacífico. Às vezes até cordial.

O caso que me toma o tempo hoje é o caso do barulho que a quase totalidade da humanidade chama de música, pois tem ritmo, marcado por trovões, melodia, vá lá que seja, e harmonia. Isto é, tem os três elementos fundamentais de que se forma a música. Por isso a designação. O problema é que, além desses três elementos, a música deles, dos meus vizinhos, tem volume. Não este volumezinho de acalanto, que quase sempre serve de fundo para nossos passeios imaginários pelos mundos próximos ou distantes. O volume com que nos presenteiam, convencidos de que seu gosto é universal e que lhes somos imensamente gratos pelo presente, faz tremerem as paredes, tilintarem as garrafas nas prateleiras, faz vibrar nossa pele, entupindo nossos ouvidos, pois nem conversar com nossos familiares podemos.

Ao me queixar a um amigo sobre o que venho sofrendo, ele, que é mais plugado que eu nos costumes modernos, afirmou que o caso não é só à minha volta. A cidade toda está barulhenta, o País inteiro vive de maneira trepidante, como se morássemos todos dentro de uma tecelagem em pleno funcionamento.

Bem, mas estamos falando é de música.

Dificilmente passa um carro aqui pela rua de casa, sem que a própria, a casa, deixe de estremecer. Ouço com frequência o barulho das telhas, que até minutos mais tarde continuam em serviço de acomodação.

Pois este assunto, que segundo psicólogos e filósofos com mais autoridade do que eu para tratar do assunto afirmam é um dos sinais de que a humanidade, e particularmente a ala jovem da humanidade, precisa do barulho para não precisar conversar ou apenas pensar. Vai-se a uma festa, lá estão eles movendo os braços, trançando as pernas, a boca fechada. Namora-se por gestos e esgares. O rosto, tão pouco é o que se tem a dizer, com sua expressão já diz tudo.

Nesta véspera de Natal, um vizinho recente, que se instalou aqui perto de casa, do outro lado da rua, inventou de celebrar o nascimento de Cristo. Sim, pois se não estou enganado, é isso que motiva encontros de familiares e amigos. E no encontro do vizinho, umas vinte pessoas em poucos metros quadrados, houve algumas coisas estranhas. A começar pelo volume de trovoada dos aparelhos de som, sabe, esta história de decibéis muito acima do humanamente aceitável. Coitados, pensei, precisam do barulho, caso contrário teriam de conversar como amigos. Mas o pior foi só terem desligado sua aparelhagem às cinco horas da manhã.

Outra coisa estranha foi o tipo de música que lhes entupia os ouvidos: pagode, música de Carnaval e, por fim, este lirismo amoroso tardio (em arte) a que chamam de música sertaneja.

Perplexo, descobri que Natal, Carnaval, hoje, é tudo a mesma coisa.

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