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Cultura

Crônica do Menalton

Demos Kratós

por Menalton Braff publicado 28/03/2014 09h54
Cheguei à conclusão de que democracia é assim: o pai chama o filho e diz: "pode casar com quem você quiser, contanto que seja com a Maria"

Povo e poder. Pobre democracia, que desde o tempo dos gregos já passou por mil vicissitudes, já foi utilizada para justificar crimes hediondos, tem sido a capa que encoberta ditaduras terríveis.

Não me agrada muito a política internacional, me enoja um pouco, mas tem sido assunto persistente nos noticiários e me vejo forçado a chegar a algumas inferências. De conhecimento empírico, está claro, mas de acordo com alguma lógica nem sempre presente nos noticiários.

Depois de cotejar algumas notícias e tentar encaixar fatos em conceitos, cheguei à conclusão de que democracia é assim: O pai chama o filho e diz: - Pode casar com quem você quiser, contanto que seja com a Maria.

O que existe de ambíguo no título é o radical demos, que de demônio não tem nada, como vocês todos já sabem. O que talvez não saibam é que povo é termo vago, muito geral, cabendo lá dentro todos os tipos de povo existentes. Sim, porque povo pode ser contra mim ou a meu favor. Se for a meu favor, sua manifestação deve ser respeitada, sua opinião tem valor universal. Percebem? Se o povo está de acordo com minhas posições, é um povo democrático, isto é, merece o poder.

Mas o diabo é que existe também povo que não concorda comigo. Então nem merece o nome de povo. É multidão. Como, não há diferença! Claro que há, consultem-se os sociólogos. Ora, se não merece o nome de povo, se é apenas um amontoado de gente, que não concorda comigo, portanto gente desqualificada, não merece o kratós, o exercício do poder.

Espero que vocês, pessoas de boa vontade que formam o povo do qual sou um átomo, não me acusem de estar condenando o comportamento de nação alguma. Meu propósito, aqui, nesta crônica (de kronos), é levantar questões para nossa reflexão, mas sempre em caráter abstrato. Não sou filósofo, mas tenho alguns amigos que são, e, observando o modo como discutem, aprendi que as melhores discussões são aquelas em que não se metem particulares nenhuns.

Uma lição a mais que se tira desta reflexão: Se x afirma que só é povo quem concorda com ele, devo respeitar a opinião de x. Mas nada é tão simples assim. O cruel de tudo isso, é que y também afirma que só é povo quem concorda com ele, e se respeitei a opinião de x, por que não respeitar a opinião de y?

Bem, desse imbróglio só podemos sair por escolha. X ou y, um dos dois se aproxima mais do que eu penso. Então faço minhas escolhas, vou pra rua gritar, defender x ou y, na suposição de que estou me defendendo. Muitos que defendem radicalmente a democracia, não apenas para defender suas conveniências, na verdade, preferem casar com a Maria. Pensar é cansativo e perigoso, eles concluem.

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