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De Vargas a Lula, documentário discute a industrialização

por Carlos Drummond publicado 10/05/2015 16h06
Filme 'Um sonho intenso' guia público pelo complexo e contraditório nacional-desenvolvimentismo
Divulgação
Cena do filme 'Um Sonho Intenso'

Longa é dirigido pelo cineasta José Mariani, professor de Cinema e Documentário da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

O documentário Um sonho intenso lança luz sobre o processo multifacetado, complexo e contraditório, raramente bem compreendido, da industrialização e do nacional-desenvolvimentismo.

Constituído por depoimentos de economistas com visão histórica, foi concebido pelo cineasta José Mariani, professor de Cinema e Documentário da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a partir de “janelas de conhecimento” surgidas na elaboração de dois outros trabalhos, sobre cientistas brasileiros e o economista Celso Furtado. Abrange o período entre os anos 1930, da Grande Depressão mundial, aniquiladora da economia cafeeira no Brasil, e o momento atual. 

A importância da obra para desmistificar e decifrar o senso comum sobre o período é considerável. Parte da esquerda, por exemplo, ainda tem dificuldade em admitir que as principais instituições do Estado brasileiro foram criadas por Getúlio Vargas, um presidente ditador, admite o economista Francisco de Oliveira.

Na visão estabelecida, não matizada e simplificadora, o presidente Juscelino Kubitschek, com mandato de 1956 a 1961, criou a indústria de base, mas foi entreguista. Nem um nem outro, observam os economistas João Manuel Cardoso de Mello e Maria Conceição Tavares.

Vargas criou a indústria de base em 1954, Juscelino deu-lhe continuidade e iniciou uma nova etapa de industrialização ao realizar, nas condições existentes, uma composição hábil dos interesses do capital estrangeiro no desenvolvimento da indústria automobilística, do capital nacional na formação do setor de autopeças e do Estado no estabelecimento das condições para a constituição desse tripé.

Ao longo do documentário, percebe-se como realizações de um governo democrático ganham sobrevida surpreendente em outro, ditatorial. Foi o caso das reformas do Estado do Plano Trienal desenvolvido pelo ministro Celso Furtado, do governo Jango Goulart (1961-1964), implantadas, em grande medida, pela ditadura militar que o sucedeu.

Apesar de nacional-desenvolvimentista, esta baixou a Instrução de 63, da Superintendência da Moeda e do Crédito, antecessora do Banco Central, que liberou a movimentação de capitais e deixou o País vulnerável às crises externas, passíveis de, nessas condições, resultarem em crises cambiais.

Se a industrialização e o nacional-desenvolvimentismo são obras genuinamente brasileiras em linha com a história da economia dos países avançados, marcada pela constituição de uma manufatura própria sólida e a estruturação de um mercado interno, a liberação ao capital externo pela ditadura e as privatizações promovidas pelos neoliberais são réplicas de paradigmas externos, portanto de interesses alheios aos do País.

As privatizações, apresentadas pelos governos Collor e FHC como condição para aumentar a eficiência das empresas, nada tinham a ver com isso, mas com o movimento do capital financeiro, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

Os neoliberais venderam as estatais (entre elas, algumas altamente eficientes como a Vale do Rio Doce, aponta Cardoso de Mello), elementos importantes de um modelo bem sucedido no fundamental, mas em seu lugar, nada colocaram, diz Lessa.

A modernização foi conservadora e não beneficiou amplos segmentos da população, entre eles, os trabalhadores rurais, “os mais destituídos da terra”, segundo a economista Lena Lavinas. Foram alvos da repressão violenta, pelos militares, na sua luta contra o despotismo dos latifundiários e nas tentativas de reforma agrária.

As propostas de mudança da estrutura fundiária no Brasil nunca extrapolaram, porém, os objetivos de uma ampliação capitalista e burguesa do mercado por meio da incorporação de uma parcela da população rural ao consumo. Isso não a impediu de ser um dos principais pretextos dos militares para instalarem um regime de exceção no País.

A incorporação da massa pobre ao consumo e o aumento da presença dos trabalhadores na cena política são fenômenos recentes e o seu principal personagem é Lula. O documentário destaca uma das realizações mais importantes do ex-presidente, a valorização real expressiva do salário mínimo, condizente com a mesma iniciativa tomada por Vargas.

Ninguém mais, além de Vargas, teve um projeto abrangente para o desenvolvimento do Brasil, mostra o documentário. Petrobras, CSN, BNDES, Banco do Nordeste, CNPq, a CLT e vários outros pilares do Estado atestam a importância do político controvertido, mas de importância fundamental. A ponto de todos os seus sucessores terem se empenhado no prosseguimento ou na desconstrução da sua obra.