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De poeta a passarinho

por Rosane Pavam publicado 17/11/2014 13h10, última modificação 17/11/2014 19h10
Manoel de Barros escrevia para amplificar a beleza
Jonne Roriz/Estadão Conteúdo
Manoel de Barros

Verdades inventadas e palavras tortas para aumentar o mundo

Ontem choveu no futuro, escreveu Manoel de Barros, e agora, sabemos, não haverá mais um amanhã para que este poeta brasileiro voe fora da asa e nos traga novos e maiores poemas. Sua neta Joana declararia sobre a falência múltipla de órgãos que o acometera quinta-feira 13 no hospital de Campo Grande, onde se internara 19 dias antes, para uma desobstrução intestinal: “Ele estava muito debilitado, muito velhinho. Ele descansou. Ele virou passarinho”.

Difícil coletar os dados da vida de quem só procurava pelas coisas rasteiras, aquelas que por isso mesmo celestavam, e que muito menino, na fazenda da família, no Pantanal, aprendera a confeccionar inutensílios à beira do Rio Paraguai. Orgulhoso inventor do esticador de horizontes e do abridor de amanheceres, Manoel de Barros morreria um mês antes de completar 98 anos, certo, contudo, de só ter tido infância. Depois de haver herdado a fazenda do pai, e por dez anos tê-la deixado pronta para funcionar sozinha, retirou-se para só viver da invenção poética e da meninice.

“Invenção serve para aumentar o mundo”, e lá foi Barros praticar o que escreveu. Depois de “comprar o ócio”, concentrou-se naquele que intitulava seu “ser letral”, sempre acompanhado da mulher Stella, que lhe dera três filhos, dois mortos adultos, enquanto ele vivia. O documentário Só Dez por Cento É Mentira, feito a duras insistências por Pedro Cezar, em 2008, mostra-o no cômodo de sua casa, “lugar de ser inútil”, a escrever à mão, com letra miúda, em caderninhos por ele mesmo confeccionados. Era onde guardava os poemas.

Não lhe perguntassem o segredo de sua artesania. “Poesia a gente não descreve, a gente descobre”, disse ao documentarista. “Sou procurado pela poesia. Não sei o que é inspiração, só conheço de nome.” Seus livros se sucederam como deliciosa água, todos indispostos às informações, antes realizadores dos máximos encantamentos, expressos desde os títulos: Livro de Pré-Coisas, Arranjos para Assobio, Retrato do Artista quando Coisa, Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave, O Guardador de Águas, O Livro das Ignorãças, Gramática Expositiva do Chão, tantos. No segundo semestre de 2015, a Alfaguara começa a reeditar seus primeiros títulos. – Rosane Pavam

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