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De Hemingway, com amor

por Willian Vieira — publicado 03/07/2011 08h40, última modificação 06/07/2011 18h56
Projeto reúne cartas do escritor mais durão da América e revela uma faceta sensível e romântica no cinquentenário de sua morte. Por Willian Vieira. Foto:Reuters/Latinstock
De Hemingway, com amor

Projeto reúne cartas do escritor mais durão da América e revela uma faceta sensível e romântica no cinquentenário de sua morte. Por Willian Vieira. Foto:Reuters/Latinstock

Diz a lenda que ele as usava o mínimo possível. As palavras eram tão importantes para Ernest Hemingway que seus livros as traziam bem lapidadas, mas sempre subjugadas ao estilo lacônico e atlético com o qual construíra seu alter ego e sucesso absoluto. Papa, como os amigos o chamavam, sintetizava emoções em diálogos telegráficos que indicavam só a ponta do iceberg. Aí residia sua arte. E daí jamais ter permitido que estudiosos tocassem sua correspondência, pois sabia que nela jazia uma escrita a ultrapassar o mito e revelar o homem: o irmão dedicado, o marido cansado da guerra, o romântico que sucumbia às mulheres e implorara à última para não publicar suas cartas. Hemingway matou-se em 2 de julho de 1961, com 62 anos incompletos. E a viúva trouxe a público 600 delas. Traição que apenas arranhou um vasto universo epistolar que tanto revela do paradoxo do artista.

“Seu estilo nas cartas é totalmente diferente dos livros. Elas captaram sua vida de uma maneira que a literatura nunca conseguiu”, diz Sandra Spanier, coordenadora do Hemingway Letters Project e talvez a única pessoa a ter lido praticamente tudo o que ele escreveu, incluindo 6 mil cartas. Só elas, diz, permitem escavar o lado humano do escritor, o que explicaria o esforço para reunir toda a sua correspondência em 18 volumes cronológicos, a serem publicados a cada um ano e meio pela Cambridge University Press, em até 25 anos. O primeiro, com cartas de 1907 a 1922, a maioria inédita, será publicado em outubro. E trará, pela primeira vez, um Hemingway menino, que escreve inocentemente sobre o lado ordinário da vida.

Desde cedo seus interesses convergiam para a natureza e os animais, muito por influência do pai, “com quem dividia um amor pela natureza e pelas paisagens”, além daquele pelas armas – ele lhe deu a primeira espingarda, aos 10 anos. Dessa relação brotam as primeiras cartas. Longe do estilo que desenvolveria como escritor 15 anos depois, Hemingway comentava, sem economia de palavras, sobre animais, plantas, sobre a chuva e o tempo. “Ele descreve tudo o que vê, gosta de fofocar e contar segredos para as irmãs”, explica Spanier. Hemingway é um midwestern curioso e tem nas cartas o meio para externar sua consciência, mesmo ainda presa no mundinho do lar.

Foi no estado de Illinois que Ernest Miller Hemingway nasceu, em 21 de junho de 1899. Segundo de seis irmãos (quatro mulheres), era filho de um médico que cultivava mais a barba e a caça do que a profissão. A mãe tentou trazê-lo para a religião e para a música, mas o pai o cativou mais. A ele a primeira carta de Hemingway foi endereçada. Era 1907. Tinha 8 anos e falava sobre gansos e morangos. Em outra, contava à mãe que havia crescido tanto que suas roupas não cabiam. Um desenho com os braços de fora vai com a mensagem: “Por favor, me deem calças longas”, momento em que capta a nascente virilidade, anos depois tornada a essência do escritor.

A correspondência dá a noção dos saltos temporais em sua vida. Hemingway chegou a trabalhar como repórter em um jornal de Kansas City e as cartas do período mostram sua excitação com as matérias publicadas. O ego já acompanhava seus escritos. Uma delas o traz extasiado com um jogo entre oficiais das forças armadas, meses antes de partir para a Europa como motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial. Outra, enviada em 1918 a um colega, ilustra o estado de espírito. “Estou passando muito bem aqui! Tive meu batismo de fogo em meu primeiro dia”, diz. “E vou para o front amanhã. Cara, eu me sinto tão feliz por estar nessa!” Mesmo tom que manteria nas cartas à família. Do hospital onde se recuperava do acidente, escrevia sobre os aplausos recebidos, idolatrava a justeza da guerra, elencava as medalhas a ser recebidas e se deliciava com a atenção das garotas e o título de herói americano.

Mas o jovem amadureceu. Amou uma enfermeira que o deixou por outro. Teve um conturbado casamento com a primeira mulher, Hadley. No fim de 1922, roubaram sua mala com histórias. “As cartas explicam as experiências que ele transformou em arte”, diz Spanier. Nelas, o escritor conta quão devastado ficara com tais decepções. As cartas traduzem os oito em Paris, convivendo com a admirada Gertrude Stein, que analisava seus primeiros escritos, com artistas como James Joyce e Pablo Picasso. Anos em que não só o jovem entusiasta virou um cético, mas em que o estilo do homem se separou daquele do escritor.

Quando, em 1926, publicou sua primeira novela de sucesso, O Sol Também se Levanta, já era o Hemingway mito. Um homem distante, implacável, incansável touro em busca de paixões fugazes e aventuras de guerra. Jake Barnes se transformaria nele mesmo, seria o estereótipo do macho escritor, mas nem sempre se refletiria nas cartas aos amigos. Três anos depois e pouco mais de dez anos após a guerra, Hemingway publicaria, em 1929, Adeus às Armas, relato cínico e anti-heroico sobre as batalhas, vazio da glória, honra e simbolismo que brilhavam nas cartas do jovem soldado.

Nas epístolas, ele continuava um rapagão excitado com a vida, sensível, afeito à ópera, amante da literatura. “Essas cartas mostram o verdadeiro Hemingway. Ele foi tão famoso que a personalidade pública contaminou sua imagem. O que sobra é sua foto com um leão morto. E ele não era só isso”, diz Spanier. Nas cartas, sua personalidade varia. O estilo que ele construiu nos livros, a dureza sintética de Robert Jordan de Por Quem os Sinos Dobram, não o oprime nas cartas. Ele não corrige as palavras. É prolixo. Uma vez disse que, se prestasse atenção ao texto das cartas, nunca poderia escrever livro algum.

Elas eram ainda uma maneira de lidar com as frustrações. Muitas vezes nem sequer as mandava, guardando numa caixa de “não enviadas”. Uma dessas chama atenção. Era o começo dos anos 1950. Em sua Finca Vigia, onde preparara O Velho e o Mar, achou tempo para escrever ao destinatário pedindo que parasse de incomodar os cidadãos americanos em suas admoestações no Senado. Chamando-o por palavrões “impublicáveis”, o escritor, no auge da fama e do dinheiro, o desafiava para uma briga. De punhos. Em Cuba. Quem a receberia era o maior caçador de comunistas da América, o senador Joseph McCarthy.

Mais curioso, porém, é vê-lo de joelhos por uma mulher, a escritora Martha Gillhorn. As cartas o mostram um adolescente implorando casamento à amante após a Guerra Civil Espanhola. Na lua de mel, Martha foi chamada para cobrir uma guerra. Hemingway foi junto a contragosto e serviu de assistente. Martha então quis cobrir outra guerra e ele declinou. Mas quando ela mandava trechos da nova novela, ele lia para os companheiros de barco, em Cuba, quando não estava discutindo o menu com o cozinheiro. Ou escrevendo cartas.

Hemingway guardava tudo que tivesse sua letra, sua escrita, seu nome, em uma biblioteca de memórias pessoais. Dizia que era uma maneira de manter o frescor das experiências para usá-las depois. Hoje essas cartas oferecem profundidade a um dos mitos mais cristalizados da literatura. Elas não aventam suicídio, por exemplo, mas mostram sua dificuldade para escrever após O Velho e o Mar, que o alçou ao Nobel em 1954. Ele então redigia cada vez menos cartas, sintoma da morte literária. Quem lê os livros alcança uma camada do escritor mais profunda que sua foto ao lado de um elefante. Mas quem lê suas cartas adentra ainda mais no âmago do artista. E descobre que, por trás da carapaça ranzinza, há um aficionado não só por touros e safáris, mas pela sutileza da vida.