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Cultura

Crônica do Menalton

De barbada

por Menalton Braff publicado 03/04/2014 14h41
O quarteirão onde morava não precisava ligar rádio ou a tevê para saber quando o clube do Lordebáiron ganhava. Bom de goela, o sujeito
percursodacultura/Flickr
Torcedor

Nesta última Copa, ele precisava transcender tudo que já fizera alguém pelo futebol do Brasil.

Lordebáiron descendia de uma família de amantes do futebol. No berço (ele nasceu em ano de Copa) antes da mamadeira recebeu uma camisa amarela com gola verde e o número dez azul nas costas. Todos em sua casa eram torcedores fanáticos e mais fanático que todos era Lordebáiron. Nunca foi bom de bola − as pernas duras − mas era insuperável em gritos. O quarteirão onde morava não precisava ligar rádio ou televisão para saber quando o clube do Lordebáiron ganhava. Bom de goela, o sujeito.

Nesta última Copa, ele precisava transcender tudo que já fizera alguém pelo futebol do Brasil. Sim, porque havia também concurso de torcida: quem é o torcedor mais fanático da cidade? Às vezes o campeonato tornava-se estadual, e o último Lordebáiron perdera por pura distração. Entrou na sala de salto alto, pensando que ninguém torceria como ele. Para sua infelicidade, a duzentos quilômetros dali havia uma família igual à sua, e o cretino do Sirválter vinha treinando há dois anos para aquele campeonato. Treinava em segredo, a portas fechadas, sem revelar sua tática.

Boas razões Lordebáiron  apresentava a si mesmo para um desempenho convincente, que lhe devolvesse o cetro de maior torcedor do Brasil.

Com essa disposição foi que Lordebáiron entrou no jogo. Apostou tudo que tinha. O carro, as ações, sua conta no banco, a casa. Apostou tudo. Só não apostou a esposa e os dois filhos porque gente, àquela altura andava sem preço de mercado. Muito pouco valor. Mas apostou o cachorro, a pessoa mais importante da família.

Era um domingo à tarde, fazia um pouco de frio, mesmo assim a casa de Lordebáiron ficou com portas e janelas abertas: o Brasil estava na final.

Na sala, além do quarteto familiar, muitos amigos e alguns parentes. O distribuidor de cerveja do bairro tinha sido contratado para não deixar faltar bebida durante o jogo. E fogos. Muitos fogos distribuídos em pilhas na frente de cada janela. Ao lado da porta, tinha ficado uma caixa de metro cúbico ou mais com centenas de rojões.

Duas horas antes da hora marcada para o início do jogo estavam todos reunidos − devidamente sentados em sofás e poltronas ou perambulando pela sala e atrapalhando a concentração dos outros. Alguns afinavam ainda as cordas vocais, os participantes do campeonato paralelo, aquele campeonato de torcida.

O cheiro do churrasco não atrapalhava muito, porque a churrasqueira ficava lá nos fundos da casa, o vento era favorável, entrava pela porta da frente e ia sair lá atrás pela porta da cozinha. O tapete, que também tinha entrado no rol das apostas, estava um pouco engordurado, com farinha de mandioca esparramada entre manchas escuras de sangue, mas isso não preocupava. Logo depois do jogo, receberia um tapete novinho para substituir o próprio que já suportara uns doze invernos com suas três copas.

Faltando meia hora para o início do jogo, Lordebáiron mandou passar mais uma rodada de linguiça assada, com cheiro de fumaça, e cerveja bem gelada, servida em copos brancos de plástico da melhor qualidade. O espíqui da televisão, o coroado Gavião Breno, ajoelhou-se, misturando lágrimas sinceras e sentidas com palavras fervorosas. Não há como perder, ele disse depois do amém.

− O Brasil já se encontrou com o Polo Norte quinze vezes em copas do mundo, nos últimos trinta anos. O que nos dá uma média de um jogo a cada dois anos. Desses quinze, o Brasil venceu cinco por um a zero, quatro por dois a zero, e seis por seis a zero. Portanto, senhoras e senhores telespectadores, não há mesmo como perder.

Ao fundo, através do vidro do estúdio, aparecia uma parte da arquibancada. Era um amarelo só. O amarelo canarinho de tantas glórias futebolísticas. A família toda reunida ali na sala mais os amigos e parentes se emocionaram ao ver o esplendor vibrátil do amarelo que representa as riquezas do país. Houve um momento em que ninguém ousou respirar para não estragar o espetáculo com seu ruído.

A cena não teria tido lá grande importância se em seguida, quando a câmera fez um close no espíqui, uma rajada de vento não tivesse entrado na casa com a vibração e a fé de muitos milhões em ação, formando uma imensa e pesada corrente. Então todos se levantaram e, de mãos dadas, juraram torcer até a morte.

− Os times estão entrando no gramado para o aquecimento, meus amigos. Vamos ouvir o que tem a nos dizer o Jota, que hoje cobre a equipe do Brasil e que já se acha em campo. Fala, Jota!

− Muito bem, meus amigos e inimigos, aqui quem vos fala é o Jota diretamente da boca do túnel que dá para os vestiários. Os jogadores brasileiros acabaram de passar por aqui, todos calçados de chuteiras e devidamente uniformizados com camisas amarelas e calções azuis. O técnico Zangado, vem chegando aqui, senhores telespectadores. Então, Zangado, quais são as expectativas para o jogo de hoje?

− Olha, o Brasil já enfrentou o Polo Norte quinze vezes em copas do mundo. Das quinze, o Brasil venceu cinco por um a zero, quatro por dois a zero, e seis por seis a zero. Com esta retrospectiva, acho que não existe dúvida sobre nosso favoritismo. Queremos ainda superar os resultados dos encontros anteriores.

Durante alguns segundos nada mais se ouviu tal a balbúrdia na sala de Lordebáiron. A cerveja misturou-se ao sangue do churrasco no tapete, e a farinha de mandioca formou uma gororoba escorregadia, que a dona da casa não viu, tendo de ser levantada por dois dos torcedores mais parrudos. Mas de repente todos se aquietaram de olhos grudados na tela da televisão.

− Gavião Breno, nosso centroavante, aqui ao meu lado, vai confessar em público tudo aquilo que o treinador pediu.

− Com certeza. O professor mandou que a gente jogasse bola, chutando sempre na direção do adversário. E é o que nós vamos fazer para dar uma alegria a esta torcida maravilhosa, tanto os que estão aqui lotando a arquibancada como aqueles que não puderam viajar e ficaram em casa torcendo na frente da televisão.

− Mais alguma coisa, Amarelo?

− Bem, eu queria aproveitar pra mandar um beijo e um abraço para minha mãe e um recado ao meu irmão. Olhaqui, Azul, a chave do meu apartamento ficou debaixo do capacho, se você quiser ver o jogo no meu home theater, pode entrar, mas vê se deixa tudo do jeito que encontrou. E pra minha nova namorada, que a esta hora está me vendo: Branca, não te preocupa, não. O nosso filho não vai ficar sem pai. De qualquer jeito, se tu não quer casar comigo, eu garanto uma pensão de cem mil cruzados por mês pra vocês dois.

Bola pra cá, bola pra lá, os jogadores nacionais e os internacionais cumpriram o ritual do aquecimento. Três homens com um uniforme diferente entraram, examinaram as redes dos gols, dividiram-se simetricamente no campo, e o juiz principal se pôs a apitar chamando os protagonistas da peleja para seus lugares.

Agora sim, era proibido respirar, dizer bobagens ou soltar gargalhadas. O Brasil cobriu-se de sul a norte de um pensamento só: não há como perder.

O juiz trilou o apito estridente e, de braço em riste, ordenou o início da batalha.

A bola rolava, às vezes voava, indiferente às pancadas que lhe davam. Os dois times batiam na mesma bola. O Brasil, graças à sua superioridade técnica e à ginga de seus jogadores, propriedades sócio-psico-fisiológicas exclusivas do jogador brasileiro, não se afoba quando está com a bola, muito menos quando a perde. Noventa minutos é tempo bastante para enfiar uns sete, oito gols no inimigo.

Nosso goleiro estava tomando uma cervejinha à sombra de uma das traves e um jogador do Polo Norte percebeu a boca escancarada e sem dente. Do meio do campo desenhou uma parábola com a pelota que foi aninhar-se nas malhas da rede nacional. Ouviu-se um Oh! imenso, que veio até a sala pelas ondas hertzianas e um outro Oh! que se ouviu em todos os quadrantes da pátria.

Fechado em seu aquário, Gavião Breno gritava possesso.

− Impossível, amigos do Brasil, simplesmente impossível. O Polo Norte jamais ousou fazer um gol na seleção canarinho, não é hoje que vai fazer uma coisa dessas. Impossível. Eu tive uma vertigem, não vi nada do que me parece ter visto. Se não há como perder, verdade que temos repetido incansavelmente aqui deste microfone, os meus olhos me enganaram. Não vi o que vi.

E realmente, seus olhos nada mais viam, tantas e tão intensas eram as lágrimas que derramava.

− E na hipótese de eu ter visto o que vi, então posso garantir a vocês que o jogador inimigo estava em evidente impedimento. Não estava, Leporídeo Cunicultor?

− Bem, Gavião Breno, você está enganado. O fato é que o jogador inimigo chutou de seu próprio campo e, mesmo que todo o time brasileiro estivesse além da linha que divide o campo, isso, segundo as regras da FIFA, não constitui impedimento. O gol foi legítimo, Gavião.

Foi reiniciado o jogo no centro do gramado e, na televisão, pouco se ouvia a voz angustiada do espíqui. Por engano a câmera focou o interior do estúdio e viram-se cenas de imensa tristeza. Gavião Breno era abanado por duas funcionárias enquanto usava um enorme lenço para se assoar. A um canto, dois comentaristas abraçados choravam, um com a testa metida no ombro do outro.

Na sala, entre familiares e amigos, Lordebáiron consultou o relógio.

− A gente ainda tem tempo pra dar uma goleada, pessoal. Vamos pensar positivo que a sorte vira. Vamos, gente. Todo mundo pensando positivo.

De tão positivo que todos ali pensaram, surgiu no ar, bem nítido, o desenho de um sinal de adição. Alguns, que não entenderam o fenômeno, se persignaram.

Com fé ou sem ela, estavam todos pálidos, mas podia ser apenas o reflexo do amarelo da arquibancada, a todo momento mostrada pela televisão.

O primeiro tempo não teve maiores novidades. Um a zero para o Polo Norte. Os comentaristas pararam um pouco de chorar para garantir que agora, lá no vestiário, o Zangado está fazendo uma nova preleção.

− O que é que você pensa disso, Mansão?

− Bem, eu, no lugar do Zangado, tirava os volantes e os meias armadores e botava cinco centroavantes pra empatar, primeiro, depois continuava com esta formação até ficar em vantagem no marcador. Então tirava os cinco centroavantes avançados e botava dez zagueiros dentro da área pra garantir o resultado.

Gavião Breno respirou fundo, conseguiu sorrir e, com olhar sedutor, dirigiu-se aos amigos.

− Bem, amigos, para o segundo tempo vamos ter novidades. Não podemos perder as esperanças. Vocês ouviram bem o que o Mansão disse, não ouviram?

A televisão, no intervalo, não mostrou os melhores momentos porque todos foram piores.

No segundo tempo, o Brasil inteiro botou o coração na ponta do pé e esperou pelas modificações táticas e técnicas prometidas por Mansão. Mas elas não aconteciam. O povo se impacientava porque os ponteiros do relógio pareciam ter vontade própria e não havia corrente pra frente que os fizesse parar.

Faltavam cinco minutos para o encerramento e nada acontecia, até que o goleiro inimigo veio pra área brasileira esperar a cobrança do escanteio. E não é que o cara cabeceou certinho no canto e a bola entrou?

Apesar da fé de um país inteiro e das estatísticas escandalosamente a nosso favor, o apito final chegou sem que pudéssemos esboçar qualquer reação.

Na sala do Lordebáiron ninguém se suicidou. O dono da casa, depois de um minuto de silencio, sentenciou:

− Não adianta, eles podem vencer a partida, mas nós somos os melhores do mundo.

E como a farinha de mandioca, o churrasco e mesmo a cerveja tivessem acabado, abraçaram-se todos em despedida e foram esperar a segunda-feira.

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