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Da moda à arquitetura, tudo é música para David Byrne

por Piero Locatelli — publicado 19/06/2014 08h51, última modificação 19/06/2014 09h15
Ex-vocalista do Talking Heads fala a CartaCapital sobre livro no qual descreve suas opiniões sobre a criação artística e que acaba de ser lançado no País
Divulgação
David Byrne

Autor do livro é ex-vocalista dos Talking Heads

Existe um clichê nas autobiografias de grandes nomes do rock. Primeiro vem o amor pela música desde cedo. Depois, o sucesso, o vício nas drogas, as brigas na banda, etc. Foi dessa fórmula que o músico britânico David Byrne afirma ter fugido ao escrever Como a Música Funciona (ed. Manole, 348 págs., R$ 124,20). "Já há muitos desses livros, e todos parecem iguais." Lançado em maio deste ano no Brasil, o livro é um amplo trabalho sobre as dinâmicas do seu ofício.

Os leitores que procurarem pelas brigas do ex-vocalista com os demais integrantes do Talking Heads, por sua amizade com Caetano Veloso e pelas noites ao lado de David Bowie não irão encontrá-las na obra. Ao longo de quase 400 páginas, Byrne fala de forma obsessiva, e em grande parte impessoal, sobre fatores externos que afetam a música, abrangendo da arquitetura à moda.

A história de Byrne aparece ocasionalmente. Há, por exemplo, descrições minuciosas de como concebeu álbuns clássicos ao lado do produtor Brian Eno. No caso de My Life in the Bush of Ghosts, percorre-se um longo caminho que começa na leitura de Jorge Luis Borges e Italo Calvino e termina em um disco feito a partir a partir de colagens com gravações de índios e transmissões de ondas curtas. Na maior parte do tempo, porém, o assunto são os outros.

A ideia para o livro nasceu do exercício de escrever artigos para revistas como a Wired e de uma palestra na conferência TedTalk. Todo este material, lembra Byrne em entrevista a CartaCapital por telefone, tratavam do contexto em que se insere a música.

 

 

“Percebi que tudo o que fazia era sobre como fatores externos influenciam a sonoridade, o tipo de música que escutamos, como ela é feita, o que é produzido, o que deixa de ser produzido e como é disseminado,” explica. “Já havia falado sobre arquitetura, acústica, dinheiro e por aí vai. Então pensei que, se escrevesse um pouco mais, teria um livro.”

Ao abordar suas finanças, exibe transparência atípica no meio. Ele explicita quanto custa um disco com detalhes sobre distribuição, pagamento de músicos, aluguel de estúdios e partes técnicas como a mixagem. “Fui até meus empresários e disse que queria tornar essas informações públicas. Eles não amaram, mas entenderam,” lembra o músico. “Graças a isso, as pessoas podem saber quanto custa isso, quanto custo aquilo. Acho importante que os músicos pensem muito em dinheiro para não arruinar sua criatividade.”

Ao longo do seu livro, Byrne cita diversas vezes a música brasileira. João Gilberto aparece entre Frank Sinatra e Chet Baker quando o autor explica como novos microfones possibilitaram um novo modo de cantar, quase sussurrado, durante os anos 1950. Mais à frente, a Bossa Nova é lembrada como a trilha sonora de bares ruins, apesar da paixão do músico por ela. Já Caetano Veloso é citado em meio a uma intrincada discussão sobre as possibilidades harmônicas do piano e da guitarra.

Desta forma, não trata os brasileiros como músicos exóticos ou periféricos, mas como compositores inseridos em um sistema mais amplo. O tratamento é condizente com a história do autor, constante crítico do termo world music, que, para ele, é um exemplo de xenofobia.

Byrne se dedicou a distribuir músicas de fora dos Estados Unidos e da Europa sem usar esse rótulo desde 1988. Com sua gravadora Luaka Bop, ajudou, por exemplo, Os Mutantes a ganharem reconhecimento mundial e Tom Zé a sair do ostracismo. Segundo ele, desde então o Brasil perdeu aos poucos sua imagem exótica na Europa. “Agora, não há mais necessidade de definir um artista como brasileiro. Caetano será somente Caetano. Será o artista importante que ele é, e só isso.” Nos Estados Unidos, porém, a mudança tem sido mais lenta porque a população não está acostumada a ouvir músicas em outros idiomas.

O ex-Talking Heads não se mostra aberto somente a produções em outros idiomas, mas também às feitas em baixa qualidade, por amadores ou com processos distintos. Em seu livro, as fitas cassetes não são um odioso suporte de qualidade ruim, mas um suporte que necessitava de uma nova linguagem. Do mesmo modo, as casas de show onde surgiu o punk e o hardcore norte-americano não pecavam por um som péssimo, pois eram mais apropriadas para determinadas sonoridades do que casas de ópera italianas.