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Cultura

É tudo verdade

Da luta à poesia

por Orlando Margarido — publicado 26/03/2011 10h28, última modificação 26/03/2011 10h34
Filmes documentam agruras russas e sensibilidade literária. A cineasta Marina Goldovskaya ser á homenageada no festival "É Tudo Verdade". Nove de seus filmes serão exibidos na 16ª edição do evento. Por Orlando Margarido

Filmes documentam agruras russas e sensibilidade literária

É TUDO VERDADE

Entre 1º e 10 de abril

São Paulo e Rio de Janeiro

Na rússia de ontem como de hoje, quem incomoda morre ou definha na prisão, diz um empresário russo em Khodorkovsky, a respeito do bilionário Mikhail Khodorkovsky, desde 2003 numa penitenciária da Sibéria. O filme, exibido no último Festival de Berlim, seria ótimo complemento, caso figurasse na programação, do núcleo do festival É Tudo Verdade, em homenagem à cineasta Marina Goldovskaya. A documentarista terá nove de seus filmes exibidos na 16ª edição do evento. Entre os títulos estão Um Gosto de Liberdade (1991) e O Gosto Amargo da Liberdade (2011), díptico que contempla a jornalista Anna Politkovskaya, crítica severa do governo Putin, assassinada em 2006.

Bastaria assistir, portanto, a esses dois trabalhos de Goldovskaya para ver confirmada em parte a opinião do empresário. Mas a diretora, em quatro décadas de atividade, também relata o desmoronamento
da antiga União Soviética e a reconstrução de uma nação sombria, em filmes como o ótimo A Casa da Rua Arbat, memorial de uma residência antes aristocrática e, após a revolução, tornada morada coletiva.

A política está no centro desta edição do festival, que reúne 92 documentários de 29 países. Não apenas aquela engendrada nos palácios, de que é exemplo o filme de Silvio Tendler sobre Tancredo Neves, Tancredo, a Travessia. Mas de atitude individual e de protesto, que pode contemplar a denúncia das condições dos frigoríficos brasileiros em Carne, Osso, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, ou relembrar uma iniciativa educacional inovadora podada pelo regime militar de 1970 em Vocacional, uma Aventura Humana, de Toni Venturi.

São todos títulos da competição brasileira, assim como integram a seção competitiva internacional A Onda Verde, sobre os protestos no Irã, ou Granito, balanço da guerra civil na Guatemala. Em contraponto à dureza dessas realidades, o organizador Amir Labaki abriu espaço para a poesia, como na retrospectiva que inclui o Castro Alves de Humberto Mauro. É possível depreender atitude poética nos movimentos de lutadores amadores e profissionais em Academia de Boxe. Uma conquista e tanto do veterano americano Frederick Wiseman, que visitou um desses endereços no Texas com a mesma sensibilidade demonstrada em La Danse – O balé da Ópera de Paris, um dos vencedores do É Tudo Verdade no ano passado.