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Cultura

Se Não Nós, Quem?

Da arrogância à tragédia

por Matheus Pichonelli publicado 21/11/2011 17h15, última modificação 21/11/2011 17h46
O que torna a história da Baader-Meinhof assombrosa é a forma como os personagens (reais) se organizaram para, numa delírio coletivo, combater opressões de seu tempo com...mais opressão

Algo de (muito) assustador parece escondido nas quase duas horas de “Se Não Nós, Quem?”, filme de Andres Veiel sobre os ativistas políticos que deram origem ao grupo Baader-Meinhof na Alemanha. Diferentemente de outros filmes sobre os terroristas alemães, o longa passa praticamente batido das ações dos militantes que causaram a morte de 30 pessoas, entre juízes, banqueiros, empresários e servidores públicos durante as décadas de 1960 aos 70.

“Se Não Nós, Quem?” é, aparentemente, um filme comum sobre um casal alemão comum, filhos de pais que apoiaram o nazismo (por meio da literatura e da ação armada) em sua juventude e que, ao longo da vida, tenta se livrar do trauma que marcou a história mundial – e, consequentemente, deles próprios.

Não por acaso, a história de Bernward Vesper e Gudrun Ensslin, da faculdade à vida adulta, é entrecortada, a todo instante, por imagens de fatos que marcaram aquela geração, de discursos em branco e preto de John Kennedy aos ataques aéreos de aviões americanos no Vietnã.

A ideia parece clara: ninguém, nem na mais isolada das comunidades, está imune à história. Portanto, se uma borboleta batesse asas para não colidir com as hélices de um helicóptero americano em Saigon, uma ventania se formaria na Berlim dividida ao meio durante a Guerra Fria.

Até aí, nada de mais: dois adolescentes com interesses comuns (a literatura, o convívio com os intelectuais de sua época, a vida libertária, o discurso em favor de um mundo) se conhecem, se apaixonam, passam a viver juntos, dividem os dilemas e, juntos, começam a receber os sinais de um tempo que ainda parece longe dos ideias que jorram feito enchente numa onda da nova consciência. Não são jovens alienados, desconectados do mundo, envoltos em preconceitos e na defesa dos próprios privilégios; pelo contrário, são apresentados como agentes atentos da história, aptos a compreender a totalidade dos processos de dominação que levaram o mundo que herdaram à guerra e à segregação pela opressão. Donos de uma editora independente, responsável pela tradução, na Alemanha, de panfletos como o dos Panteras Negras, grupo americano que denunciava a violência contra os negros nos Estados Unidos, eles caminhavam para uma vida comum, embora sem abandonar a militância crítica, até o dia em que se questionaram: como podemos mudar o mundo além dos livros?

A partir daí, o que acontece é assustador. Se, no ano passado, Michael Haneke tirou noites de sono dos expectadores que viram em “A Fita Branca” o embrião da geração que, anos mais tarde, levaria o nazismo ao poder e à guerra na Alemanha, “Se Não Nós, Quem?” parece fechar um ciclo ao sugerir o fim levado pelos filhos e herdeiros daquele período. O mundo então parecia longe de atender aos seus anseios; guerras pipocavam ao redor, e a exploração do homem pelo homem parecia justificada diante da contenção da inspiração bolchevique do outro lado do muro.

Mas, tanto num filme como no outro, o que torna a história assombrosa, ainda que a violência estivesse sempre subentendida, é a forma como os personagens (no segundo caso, reais) se organizam para, numa delírio coletivo, combater opressões com...mais opressão. Os ataques a alvos civis para financiar o próprio delírio, como fariam na Itália os terroristas do PAC, têm, na origem e ao cabo, a mesma lógica que, nos tempos atuais, faz da Al Qaeda a maior indústria executora da opressão (dos atentados) contra a opressão (econômica e militar). É o que se pode chamar de racionalização do delírio – em todos os casos, de quem, como sugere o título (“Se Não Nós, Quem?”), resolveu tomar para si os rumos da história, à força e pelos meios que consideravam adequados.

É este o ponto que faz do filme de Andres Veiel um retrato assustador: os personagens não eram delinquentes, abandonados pelo mundo, que viam no crime uma saída para mudar a própria realidade, mas jovens conscientes (ou em busca da consciência) que adoeceram até a loucura e criaram métodos próprios para racionalizar delírios que em nada contribuíram para as mudanças de fato, a não ser pela tragédia. Vesper, filho de um autor de odes ao Führer, sabe dos crimes provocados pela exacerbação do nacionalismo em seu país, assim como Gudrun, a bela tradutora alemã, é capaz de se revoltar ao ver estudantes serem reprimidos em protestos contra a guerra no Vietnã. Todos – ao menos os humanos – se revoltariam, mas poucos resolveram fazer algo para parar uma guerra a quilômetros dali.

A culpa pelo fracasso dos pais em corrigir o cataclismo da Segunda Guerra os leva, em algum momento, ao radicalismo – no caso de Gudrun, a seguir, como um cão amestrado, o amante, Andreas Baader, mentor do grupo terrorista e personificação da coragem que ela não encontra no marido, nos pais, nos amigos de faculdade. E que a leva à perdição (e mostra que as tragédias histórias começam e terminam em tragédias pessoais, não só em ideais; mas isso é pano pra outra manga).

Em uma cena-chave da história, o pai da ativista chega a concluir que ela teme tanto a volta do Fascismo que chega a torcer para o seu retorno, numa tentativa de justificar os discursos sobre tudo o que mais condena (e que está prestes a simplesmente reproduzir). Em outro momento, a carcereira que a vigia após um atentado frustrado em Frankfurt chega a se questionar de que maneira alguém tão bem intencionada, e tão bem embasada na ação, poderia pensar que pararia os tanques e aviões americanos por meio de atentados produzidos na...Alemanha. É quando a carcereira pergunta: por que simplesmente não se tenta mudar as coisas por vias legais, dando três passos para trás para cada quatro à frente? O pano de fundo da pergunta é: por que não se organizar, obter apoio popular, e encarar eventuais eleições, já que estão num país democrático?

A resposta, como fica implícito no filme, vale para quaisquer grupos que, num delírio coletivo, tentaram em algum momento corrigir os rumos da história: porque eles entendem o mundo, o mundo é que não se entende; eles sabem o que é bom para a tosse, o mundo, não; eles são o povo eleito, e o mundo mal compreende a própria opressão.

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência: os resultados de tal pretensão não são outra coisa do que o caldo que engrossou todas as ditaduras instaladas ao longo da história, fundadas quase sempre em medo, em dogmas ou em escrituras, mas também (como mostra o filme) na suposta arrogância de quem pensou entender o mundo antes que o mundo tomasse consciência dele mesmo. Estar no poder ou não é só questão de oportunidade.

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