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Cultura

Resenha

Contos de fadas que crescem com o leitor

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 27/09/2011 15h33, última modificação 01/10/2011 18h52
'Reino das Névoas', de Camila Fernandes, recria contos tradicionais e inventa outros, estendendo uma ponte entre o imaginário das ex-princesinhas e o mundo real

Era uma vez uma menina que gostava de contos de fadas, principalmente nas versões melosas da Disney. Mas e depois que cresceu e descobriu que a vida é mais complicada do que casar-se com um príncipe e ser feliz para sempre? Revisitar esse mundo de ilusões infantis com um olhar mais adulto, ou pelo menos mais irônico, tem sido um tema comum na literatura de fantasia moderna a ponto de já ter gerado produtos para a indústria cultural de massas, da série de animação Shrek a muitos dos sucessos de Neil Gaiman.

Numa perspectiva mais pessoal e artesanal, Reino das Névoas (Tarja Editorial, R$ 30, 168 págs.), de Camila Fernandes, antologia editada com apoio do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, recria contos tradicionais e inventa outros, estendendo uma ponte entre o imaginário das ex-princesinhas e o mundo real da existência adulta. Tem o subtítulo de “Contos de Fadas para Adultos”, mas o tom e o conteúdo falam mais a adolescentes e adultas jovens.

Há cenas de violência, inclusive sexual, mas tratadas com sensibilidade. A raiva, em muitos desses contos, anda de mãos dadas com o amor como um sentimento vital e adulto, indispensável ao equilíbrio emocional e à busca da justiça. É uma noção de sabedoria tradicional presente em muitos contos tradicionais e que convém relembrar ante a obsessão dos bem-intencionados por livros que promovem “sentimentos construtivos” e ignoram os conflitos reais, gerando de um lado uma literatura falsa e tediosa e de outro a contrapartida inevitável de estimular o gosto pela brutalidade e pelo cinismo “proibidos”, mas facilmente disponíveis no mercado.

Linguagem e a narrativa são simples e lineares, mas bem cuidadas, como nas versões clássicas das antologias dos irmãos Grimm, de Andersen e de Perrault. Como nas melhores edições destas, são acompanhadas de belas ilustrações, que como a capa, são trabalhos da própria autora.

Eis uma amostra de prosa, do conto que dá o título à antologia, inspira-lhe a capa e é o último e mais extenso – na verdade, uma pequena novela:

“A rainha Nuura não tinha paciência para longas narrativas. Encomendara para o quarto somente as três faixas que cobriam sua parede. Para ela, a história do reino resumia-se a isto: uma comitiva de cavaleiros chegando com suas espadas e com seus cavalos brancos; os reis antigos e fracos entregando a chave do reino às mãos de seu pai, estando ela, ainda princesa, altaneira ao lado dele; por fim, seu casamento com um príncipe e a coroação dos dois como senhores daquele país, agora pacificado. Os detalhes da história não interessavam nem a seus olhos nem a seu orgulho”.

É uma rainha para a qual só importa a façanha da conquista, o casamento e ser feliz para sempre. E apesar de ter ficado viúva, até certo ponto o consegue, arrebatando rapazes para serem seus escravos sexuais durante longos períodos e depois os sacrificando para prolongar indefinidamente sua juventude e seu domínio sobre o reino. Quem é ela? Claro que é a Rainha Má. Mas a filha não é bem a Branca de Neve: tem traços tanto dela quanto de Chapeuzinho Vermelho, mas consegue superar tanto a passividade da primeira quanto a ingenuidade da segunda ao encontrar o Caçador, os Anões, a Vovozinha e o Lobo, cujos papéis são completamente transfigurados.

É interessante que uma obra de teor semelhante publicada originalmente em 2004, a novela O Caçador (Editora Franco, 100 páginas, R$ 22), de Ana Lúcia Merege, também comece pelo conto da Branca de Neve e acabe no de Chapeuzinho Vermelho. Difícil dizer se há influência direta: embora ambas tratem do amadurecimento do protagonista, são completamente diferentes na estrutura e no tom. A novela de Merege é menos sombria e ousada, embora aborde e critique esses e outros contos tradicionais, de maneira mais explícita, mas menos radical, à medida que seu protagonista “Caçador” passa por vários deles. Uma hipótese igualmente provável e mais interessante é que as histórias da Branca e da Chapeuzinho tenham se tornado particularmente problemáticas para a identidade feminina, ou pelo menos da mulher brasileira moderna, de modo que seja especialmente necessário acertar as contas com elas.

A novela “Reino das Névoas” é a narrativa mais complexa desta antologia e que fala mais ao inconsciente coletivo, mas talvez não seja a mais perfeita do ponto de vista da estética e da proposta de dar um tratamento realista aos contos de fadas. Há pequenas incongruências que, a um olhar adulto, lhe prejudicam a verossimilhança. Por exemplo, a família de Nuura, ao tomar o reino, parece ter surgido do nada e o epílogo soa desajeitado, com uma resolução forçada até mesmo pelos padrões dos contos de fadas.

Mais simples e bem-sucedido nesses aspectos é o primeiro conto, “O Chifre Negro”. Inspirado em “A Bela e a Fera”, permanece, do ponto de vista da estrutura, mais próximo do conto original – embora o cenário seja diferente e, neste caso, a Fera não seja horrível e sim mais bela que a Bela. E o final, embora seja consistente com a lógica do conto da Madame Villeneuve, consegue surpreender mais que o da novela que subverte os contos de Grimm.

“O Lenhador e a Sombra” tem inspiração menos óbvia. Lembra um pouco alguns contos populares, mas é provável que tenha sido totalmente inventado. De qualquer maneira, é um bom pequeno conto sobre um lenhador que socorre uma gata e sobre amor e bondade que tem valor em si mesma e não precisa ser recompensada por tesouros ou dons mágicos.

“A Outra Margem do Rio” também parece ser uma história totalmente criada pela autora e é das melhores da coletânea. Um rapaz é conduzido por seu pai a um casamento arranjado com uma jovem de outro reino, mas no caminho um acidente mata o pai e uma bruxa oferece ressuscitá-lo em troca dos belos olhos do jovem. Os resultados são muito interessantes.

“A Torre Onde Ela Dorme” tem como inspiração “A Bela Adormecida”, mas não a versão dos irmãos Grimm, nem a de Perrault. Seu modelo é a hoje quase esquecida versão de Giambattista Basile, também conhecida como “Sol, Lua e Tália”, na qual a princesa é despertada com algo mais rude que um simples beijo. As consequências disto fazem deste o conto mais sinistro e raivoso da coletânea, mas também um dos mais poderosos.

“A Filha do Fidalgo” é um miniconto baseado em “O Príncipe Sapo”, mas menos interessante e inspirado que os demais da antologia. É uma piada irônica, que bem poderia ter sido usada como mais uma gag em Shrek.

“A Espera”, sobre uma princesa à espera de um príncipe que a ajude a abrir uma porta encantada, é um conto também breve. É menos prosaico, mas a história é um tanto esquemática e a lição de moral demasiado óbvia.

Também não está entre os melhores do livro: a autora se sai melhor quando se dá espaço suficiente para que a trama se desenvolva com sua própria lógica, dando espaço a interpretações mais abertas. Isso também permite que o peso dos pormenores incômodos da existência concreta, das contradições da realidade, das decisões e suas consequências sejam sentidos de maneira a dar a essas narrativas – quer os elementos mágicos estejam presentes, quer não – a verossimilhança necessária a uma leitura adulta, sem que percam o frescor e o encanto de um autêntico conto de fadas.