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Cultura

Crônica do Menalton

Confissão de um fraco

por Menalton Braff publicado 26/03/2016 10h38
Atualmente existe um tipo de pessoas que me cansa em pouco tempo. Já fui bem mais tolerante, mas exemplares desse tipo vêm crescendo assustadoramente

Nunca me imaginei tão fraco como agora me descubro. É claro que existem muitos tipos de fraqueza e só me confesso fraco para alguns dos tipos. Se me ausculto, por exemplo, procurando fraquezas físicas, não encontro grande coisa. Claro que o desgaste natural da máquina vai-se tornando evidente.

Também não tenho mais dezenove anos. Um joelho perrengue, já farto de tanto trabalho e exigindo sua aposentadoria, uma vista da qual as principais virtudes debandaram, o ouvido que fica procurando lábios alheios com a insistência de quem gostaria de não perder o que se diz, e por aí vai. Nada que um bom geriatra não consiga lenir.

Não, não é na carcaça que encontro a fraqueza, mas em órgão que geralmente não se mostra em público, e que, às vezes, quando cheio, ameaça estourar. Enfim, ainda não se fabricam de aço.

Atualmente existe um tipo de pessoas que me cansa em muito pouco tempo. Já fui bem mais tolerante, na minha vida, no tempo em que era mais resistente. Além disso, os exemplares desse tipo vêm crescendo assustadoramente. Parecem cogumelo: basta uma chuvinha e aparecem por todo canto.

Outro dia, uma dessas pessoas do tipo que me cansa, veio fazer-me uma visita sem me avisar. Bem, isso não teria muita importância, não fosse o fato de que eu discutia o sexo dos anjos com o Adamastor, sexólogo dos bons, e ouvia algumas suítes para cello, de Bach, síntese genial da música barroca. Falávamos baixo, para que pudéssemos usufruir da música e porque o assunto não era a razão principal de nosso encontro.

O visitante inopinado sentou-se entre nós dois, não me lembro de que tenha pedido licença, olhou desconfiado para o aparelho de som e de forma até um pouco agressiva, lascou a pergunta:

─ Me diz uma coisa: por que é que o senhor só ouve música de igreja?

Comecei a tremer, estatuado, e julgo ter perdido as cores ou mudado para a cor do sangue. Senti que algo começava a estourar em mim, e cheguei a pensar em uma agressão física, no que provavelmente me desse mal. Mas tive sorte: o Adamastor, tamanhoso como é, tomou delicadamente o intruso pelo braço e o levou embora.

Na volta me contou que o visitante saiu dizendo que na minha casa nunca mais pisava. Ergui as mãos para o céu, mas o pior é que tem alguns que voltam, e voltam sempre.     

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