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Cinemas de rua e a desertificação do espaço público de São Paulo

por Nabil Bonduki publicado 13/01/2011 16h40, última modificação 13/01/2011 17h36
A morte dos cinemas de rua é um dos resultados mais graves desse processo. Embora nos últimos anos o número de salas de cinema tenha se elevado significativamente. Por Nabil Bonduki

A desertificação das ruas nas cidades contemporâneas é um dos sintomas mais graves da decadência da civilização urbana. Detectada com primor por críticos da cidade moderna, como Lewis Munford e Jane Jacobs, ainda na década de 1950 nos EUA, a crescente organização das cidades em unidades autárquicas com acesso por meio de automóveis, cercadas e vigiadas, como condomínios fechados, hipermercados e shopping centers, tem levado a um processo de abandono das ruas como espaço público e de decadência do seu comércio e lazer, vitais para a cidade e para a qualidade de vida urbana.

A morte dos cinemas de rua é um dos resultados mais graves desse processo. Embora nos últimos anos o número de salas de cinema tenha se elevado significativamente em São Paulo, em decorrência do aumento dos multiplex nos shoppings, é notável o encerramento das atividades dos cinemas que se abrem diretamente para as calçadas ou localizados nas galerias tradicionais. Processo semelhante aconteceu em praticamente todas as cidades brasileiras.

Cinemas que fazem parte do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade, como o Art Palácio, Metrópole, Marrocos, Copan e Paissandu, obras de grandes arquitetos como Rino Levi, foram fechados acompanhando a decadência do centro de São Paulo. A maior parte das poucas salas que resistiu na região exibe filmes pornográficos (nada contra, mas e os outros?); muitas viraram igrejas e outras permanecem vazias, talvez aguardando alguma ação do poder público para reverter um processo que, pelas vias do mercado, é inevitável.

O processo de fechamento não se limita ao centro. Com raríssimas exceções, todos os cinemas de bairro já encerram suas atividades. Na década passada, o processo atingiu em cheio a região da Paulista e da Augusta, último baluarte dos cinemas de rua e galeria. Desde o início do século XXI, já fecharam os cines Astor, Alvorada 1 e 2 e os três Gazetas e, mais recentemente, o Gemini. Os que resistem exibem filmes do chamado circuito de arte, alternativos à hegemonia hollywoodiana na distribuição.

Agora recebemos a notícia do fechamento do Cine Belas. É um verdadeiro desastre para São Paulo. O Cine Belas Artes é uma referência urbana e cultural. Além da sua importância como patrimônio da cidade, seu fechamento aprofundará a desertificação de uma região que tem se revigorado nos últimos anos.

O fechamento dos cinemas de rua leva à morte da própria rua. Se o Belas Artes fechar, teremos um processo de desertificação da região, sobretudo no horário noturno, gerando medo, insegurança e violência. Assim como o Espaço Unibanco deu vitalidade e recuperou seu entorno, o Belas Artes exerce um papel importante para um trecho da cidade que é referência urbana, criando vida e oportunidades para o comércio da rua. Infelizmente a falta de um plano local de reabilitação urbana, que a prefeitura precisaria encabeçar, inibe este processo. Mas a mera existência do cinema já é um excelente ponto de partido para um plano com este caráter. Cinemas geram movimento e vida, que extravasam para as ruas. É por isto que os shoppings dão grande estímulos para os cinemas que ali se instalam.

Com base nesse diagnóstico, em 2003, quando era vereador e o Belas Artes e o antigo Cine Arte (atual Cultura) estavam ameaçados de fechar, para apoiar os poucos cinemas de rua que ainda resistiam, propus e foi aprovada uma lei que permite a cinemas como o Belas Artes pagarem seus impostos municipais com ingressos, a serem utilizados em horários de baixa frequência, em programas públicos de inclusão cultural.

A lei se justifica como um estímulo ao cinema de rua, porque ele precisa ser preservado na nossa cidade. Por esta razão, é fundamental que São Paulo se mobilize para evitar que o Belas Artes, na meia noite do dia 27 de janeiro apague as luzes da sua última sessão.