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Cultura

Catálogo da bienal de caricatura refaz percurso de um gênero

por Rosane Pavam publicado 25/06/2015 03h46
Luciano Magno lança catálogo da 1ª Bienal Internacional com 800 imagens que recuperam percurso da representação nacional
Primeira HQ, de Auguste Sisson

Primeira HQ, de Auguste Sisson

Enquanto viveu, o escritor Gustave Flaubert (1821-1880) jamais permitiu que Madame Bovary, o mais célebre de seus personagens, surgisse representado nas edições impressas do romance. A representação lhe parecia uma ameaça à abrangência de um tipo trabalhado com o mais requintado dos artifícios literários.

O século de Bovary era mesmo aquele em que a imprensa burguesa e a caricatura ganhavam corpo, enquanto escritores como Flaubert denunciavam o acelerado apego do homem ao dinheiro e às coisas. Tudo o que era sólido desmanchava no ar.

Modernizar o mundo equivalia a acumular chagas sociais. Madame Bovary era ele próprio, como disse o romancista diante de seus juízes. Caricaturizá-la então talvez tivesse significado marcá-la com a singularidade do cartunista, não com aquela do escritor.

Ao ganhar corpo na imprensa daquele período, a caricatura se transformava em poderosa arma contestatória, justamente por seu poder de síntese e singularização. Uma imagem a derrubar mil palavras e, com sorte, refazer o poder.

Não só na França de um absoluto criador do gênero, Honoré Daumier, mas também no Brasil, os grandes caricaturistas se tornavam exemplares ao representar a história vivida e combatida. Em 2012, A História da Caricatura Brasileira, o primeiro volume de um ambicioso projeto editorial de Luciano Magno a mapear o gênero, apontava precursores.

De Araújo Porto-Alegre a Angelo Agostini ou Sebastien Auguste Sisson, o Brasil agia com a ferocidade possível diante das incongruências. E, no século seguinte, mesmo nos períodos de fechamento político, ainda haveria caricaturistas a apontar, com humor, as calamidades do poder.

Magno lança às 18 horas do dia 25 de junho, no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, o catálogo da 1ª Bienal Internacional da Caricatura, evento que por um ano, entre 2013 e 2014, exibiu em mostras por todo o Brasil a obra dos grandes representantes do gênero no País e no mundo. O catálogo de capa dura, com 304 páginas, 50 capítulos e 800 imagens (R$ 98,00 nas livrarias e R$ 89,00 no site da Gala Edições), recupera o percurso da representação brasileira, cuja originalidade atingiu a caricatura escultural.

Na entrevista a seguir, Luciano Magno discorre sobre seu sua análise histórica e sobre a caricatura hoje, fortalecida, em seu entender, após o atentado ao Charlie Hebdo francês.

Anúncio sobre a chegada da caricatura

CartaCapital: Gostaria que comentasse suas dificuldades e surpresas ao organizar a primeira bienal brasileira de caricatura, em 2013. Houve alguma resistência à ideia por conta dos autores, governos ou museus?

Luciano Magno: Não houve resistência por parte das entidades governamentais.  Tivemos grande apoio do Museu Nacional de Belas Artes, do Museu da República, do Centro Cultural Justiça Federal. E de outras instituições, como o Centro Cultural Solar de Botafogo, além de centros culturais Brasil afora. A boa surpresa foi a grande receptividade que tive entre os caricaturistas brasileiros, participantes e apoiadores do evento.  Eles se uniram sob o mesmo espírito e a mesma identidade (a bandeira e a logomarca da bienal), num mesmo projeto.

CC: Haverá bienal neste ano?

LM: A continuidade da Bienal é nossa aspiração. Mas é importante entender que a 1ª Bienal Internacional da Caricatura – Brasil, um evento pioneiro, durou mais de um ano, a exibir a obra de 180 artistas em 40 exposições, debates e homenagens, realizados entre 27 de novembro de 2013 e 29 de novembro de 2014, e cujo grand finale  se deu com a homenagem a Ziraldo.  Foi o maior evento realizado em humor gráfico no mundo, em duração de tempo e grandeza territorial, de Porto Alegre a Belém. Portanto, nossa programação possível para uma segunda edição seria, normalmente, do final de 2016 ao início de 2017.  Vamos ver como isso se adequa.

CC: À moda de seu trabalho como pesquisador da caricatura, outros trabalhos têm analisado o tema. Nomes como o de Araújo Porto-Alegre, por exemplo, presente em sua bienal, recebem mostras específicas, como aquela organizada sob a orientação da historiadora Leticia Squeff. O sr. diria que a academia acolhe nestes tempos a caricatura como um gênero a merecer a avaliação histórica? Que trabalhos nessa área lhe parecem importantes, editados nos últimos anos?

LM: Não de hoje a Academia dá importância à caricatura como gênero artístico e histórico. Em 1916, Max Fleiuss escreveu o artigo e proferiu a palestra A Caricatura no Brasil na Escola Nacional de Belas Artes (a academia de Belas Artes da época).  Raul Pederneiras, idem. Monteiro Lobato redigiu texto semelhante sobre a nossa caricatura em seu Ideias de Jeca Tatu

Destacaria, nos últimos anos, os esforços acadêmicos e os livros de Marcelo Balaban (em destaque, o livro Poeta do Lápis – Sátira e Política na Trajetória de Angelo Agostini  no Brasil Imperial (1864-1888); Angela Telles (Desenhando a Nação: Revistas Ilustradas  do Rio de Janeiro e de Buenos Aires nas décadas de 1860-1870); Isabel Lustosa, com seus estudos sobre Angelo Agostini e outros temas; e Márcio Malta, com sua biografia de Henfil (Henfil - O Humor Subversivo).

Quanto a  este último, ele conseguiu  algo bem interessante e inusitado: não acompanhou a trajetória de Henfil (era muito jovem quando Henfil morreu), mas conseguiu traduzir o espírito da época em que o artista viveu e sua fantástica trajetória. Tive a felicidade de contar com esses três últimos historiadores aqui citados, em debates realizados no Museu da República, dentro da 1ª Bienal Internacional da Caricatura - Brasil.

Desconstruindo Harry

CC: Como se pode contar a história do Brasil pela caricatura?

LM: Em meu livro anterior, História da Caricatura Brasileira, está descrita não somente a história dessa arte, mas também aquela do jornalismo e do Brasil ao mesmo tempo, mostrando várias passagens. A campanha abolicionista, liderada por Angelo Agostini; a Questão Religiosa, que envolveu grandes caricaturistas nacionais durante mais de 20 anos;  e a causa republicana, com adeptos em inúmeros artistas. Desde 1822 (a data do novo marco inaugural da nossa caricatura), a história do Brasil vem sendo mostrada e contada por esses artistas.

No Catálogo da 1ª Bienal Internacional da Caricatura também estão os personagens nacionais e internacionais que fizeram história.  E o livro, ao desfilar os luminares da caricatura em seus 50 capítulos, do passado e da fase contemporânea, também tem o perfil de um livro histórico e de arte. Busca a densidade.  Geralmente, os catálogos de Salões de Humor publicam os trabalhos dos artistas vencedores nas mostras competitivas, sem aprofundamento histórico, com raras exceções. Este catálogo da 1ª Bienal tem, a meu ver, uma abordagem inédita.

CC:  Que dificuldades houve para organizar, dentro da bienal, a exposição da obra de um grande e desconhecido nome do passado, como Sebastien Auguste Sisson, autor da atribuída primeira HQ brasileira, O Namoro, Quadros ao Vivo, de 1855? Resta material suficiente sobre ele para tal empreendimento?

LM:  A mostra  de Sebastien Auguste Sisson teve a felicidade de contar com a colaboração dos pesquisadores  Bárbara Ferreira e Christian Sisson, este o tataraneto do artista. Além de cederem o material, editaram um desenho animado em torno dos trabalhos desse caricaturista e litógrafo, a partir de suas charges.

Jacques Tati por Fani Loss

CC: É raro e extraordinário o fato de sua bienal e seu catálogo terem dedicado uma sessão às mulheres cartunistas. O catálogo traz a surpresa, para o grande público, de obras como as de Liliana Ostrovsky e Fani Loss. Qual a sua avaliação sobre as mulheres dentro do gênero na atualidade? Parece haver menos delas a realizar a sátira política, mais envolvidas, contudo, na crítica comportamental...

LM:  A participação feminina é historicamente importante na caricatura brasileira.  Nair de Teffé (a pioneira Rian) e Hilde Weber foram marcos dessa expressão, como Irene e Arteobela Nássara. Hoje, temos no Brasil uma plêiade de caricaturistas mulheres, e na 1ª Bienal destacamos três artistas: a cariescultora (como intitulamos a caricaturista que também é escultora) Cláudia Kfouri, de Ribeirão Preto (e que homenageou a pioneira da nossa caricatura, Nair de Teffé), Liliana Ostrovsky e Fani Loss. São três talentosas desenhistas de humor, que se destacam na crítica de costumes mas não raro, quando necessário, produzem charges e cartuns políticos. É o caso de Fani Loss, no jornal Brasil Econômico.

CC: Ainda que sejam mais conhecidas, as caricaturas de Nair de Teffé e Hilde Weber merecerão outras abordagens dentro da bienal? Principalmente no caso de Weber, suas caricaturas políticas têm a marca da extrema ousadia crítica, como aquelas em torno da figura de Getúlio Vargas. É possível organizar uma seção somente sobre as mulheres e a caricatura política ou a produção não seria, a seu ver, suficientemente diversificada?

LM: As caricaturas e charges de Hilde Weber têm a marca da extrema ousadia, temática e gráfica. Nos anos 1950, no jornal carioca Tribuna da Imprensa, Hilde Weber retratou os principais personagens da nossa fauna política, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, com sagacidade e espírito crítico. Tinha o traço ágil, cortante, mas também humorístico, de origem expressionista , totalmente adaptado à  cor local, ao espírito carioca da então Capital Federal, o Rio de Janeiro de então. E também observava fatos sociais e de costumes. O que ela fez se insere em um dos pontos altos da nossa caricatura política de todos os tempos.  O Projeto Museu da Caricatura Brasileira – Coleção Luciano Magno, que também idealizo e organizo, tem a felicidade de contar com centenas de originais maravilhosos dessa grande artista, e pretendemos homenageá-la em breve, com exposições, catálogos e livros.

Le Rire

CC: Seu primeiro volume de História da Caricatura Brasileira levou algum tempo para ser editado, por conta da extensão do projeto. Como está o andamento do segundo volume?

LM:  O primeiro volume demorou anos para ser publicado porque, na verdade, eu fazia não somente um volume, mas vários ao mesmo tempo. A questão não é a dificuldade da realização de História da Caricatura Brasileira em vários volumes, até porque eu já tinha, quando lancei a obra, mais dois livros com pesquisas adiantadas e diagramação pronta.  O fato é que, depois do lançamento do primeiro volume, tive de me deter em divulgá-lo e distribuí-lo. 

Ele ganhou um Prêmio Jabuti na categoria Livro de Arte/Fotografia. E logo em seguida veio meu envolvimento na realização da 1ª Bienal Internacional da Caricatura - Brasil, que me tomou o final de 2013 até o final de 2014 (com 40 mostras organizadas), e a feitura de seu catálogo, nos últimos oito meses. Portanto, só agora, depois do lançamento deste catálogo, voltarei à História da Caricatura Brasileira.  Não tenho enfrentado problema de direitos autorais.

CC:  Por sua própria experiência como desenhista, e pela iniciativa monumental de analisá-la historicamente, diria que há uma especificidade na caricatura brasileira no decorrer do tempo? Ela seria mais tolerante, menos destrutiva ou iconoclasta, digamos assim, que a francesa, por exemplo? (Aqui pensando, claro, em exemplos como o do Charlie Hebdo, mas também como aquele que você mostra no catálogo, a capa do jornal Le Rire, de 1901, em que uma mulher reivindica para seus seios o prêmio de 100 mil francos, mesma quantia que Santos Dumont recebeu por seus dirigíveis).

LM: A caricatura brasileira tem, de fato, uma linhagem e uma especificidade que se traduzem em leveza nas primeiras décadas do século XX. Apesar disso, ela resulta tão incisiva e crítica quanto a francesa, a europeia, realizada no período. No século XIX, contudo, essa característica ainda não se tornara preponderante. Com Agostini e Cândido Aragonês de Faria, o humor é corrosivo, contundente e direto, comparável ao espírito das charges dos caricaturistas franceses de sua época e de tempos posteriores.   

Sebastien Sisson para Brasil Ilustrado

CC: A expressão escultural da caricatura, como a de Zé Andrade ou de Genin Guerra, parece ser um de seus mais interessantes desenvolvimentos brasileiros para o gênero. O sr. diria que é próprio do País trabalhar a caricatura dessa forma artesanal, assemelhada talvez à arte naïf?

LM – A expressão da escultura caricatural tem seu princípio no início do século XX, com Raul Pederneiras, Belmiro de Almeida, Fritz e Luiz Peixoto, por exemplo. Esses artistas, como Fritz, também influenciaram  outros. Fritz (pseudônimo de Anísio Oscar Mota), com seus Mendigos e o Pequeno Jornaleiro, criou a partir do estilo do francês Honoré Daumier. 

Foi também Daumier o ponto inicial do trabalho do mineiro Genin Guerra (que conheceu o trabalho do artista em sua viagem à França), na criação de suas atuais esculturas, embora estas tenham um sabor brasileiro. Zé Andrade, entre esses artistas, caricaturistas e escultores, tem a característica mais genuinamente artesanal. Sua obra em barro captura os tipo do semi-árido da Bahia.

Tal estilística também aparece em outro artista apresentado pela bienal, Hércules Mendes, de Alagoas, com as esculturas caricaturais grotescas de cantadores populares.  Esse estilo guarda algum parentesco com a arte naïf, embora estes artistas disponham de um conhecimento social, político e artístico muito mais aprofundado do que o olhar ingênuo dos naïfs. São muito politizados.  

CC: A julgar pela organização da bienal e pelos depoimentos presentes no livro, Ziraldo parece ser o nome central na caricatura brasileira da atualidade, uma espécie de espelho, de motivação, um modelo de realização editorial. É curioso ver como os autores que se dizem influenciados nem sempre parecem ter uma ligação direta com o desenho dele.

LM: Ziraldo é um dos nomes centrais da caricatura brasileira nos últimos 50 anos, e muitos artistas atuais consideram sua presença um “norte”.  Ficou emocionadíssimo quando recebeu, de nossas mãos, o Troféu Luiz Peixoto (batizado com o nome de um dos grandes caricaturistas brasileiros do início do século XX). 

Ziraldo incentivou gerações de artistas brasileiros, lançando-os e abrindo espaço para eles. Mas a caricatura brasileira tem, historicamente, outros nomes centrais a citar: desde o patrono Manoel de Araújo Porto-Alegre, Angelo Agostini, J. Carlos, K. Lixto, Raul Pederneiras, Seth, Luiz Peixoto,  e nos últimos 50 anos, além de Ziraldo, Claudius,  Ceccon, Jaguar,  Lan, além de outros.  Nássara e Millôr Fernandes também são nomes centrais, a receber homenagens nas próximas edições do evento. 

Patativa e Gonzagão

CC: Como se pode premiar o trabalho de um artista na bienal, como o sr. fez? Como medir seu valor diante de outros?

LM: A premiação na Mostra Competitiva da 1ª Bienal Internacional da Caricatura decorreu de uma avaliação de um grupo de jurados. Eles analisaram a criatividade, a inovação dos trabalhos, o estilo, e a beleza dos trabalhos.

CC: Seu catálogo homenageia os desenhistas mortos no atentado ao Charlie Hebdo. O sr. mantém contatos com o periódico? Conhece as dificuldades por que passam agora, de redefinição da empresa e da própria sátira política? Tem notícias sobre a manutenção de seu espírito crítico, diante das ameaças terroristas que parecem prosseguir?

LM: Há no livro dois capítulos que fazem homenagens aos caricaturistas franceses do Charlie Hebdo. No primeiro, expus uma angústia particular. Em outro capítulo, os brasileiros Chico e Paulo Caruso, Claudius Ceccon e Glen Batoca homenageiam os mortos Charb, Wolinski, Philippe Honoré, Cabul e Tignous. Conheci pessoalmente um dos desenhistas vitimados pelo ato terrorista, Georges Wolinski . Fui a apresentado a ele por Chico Caruso, no Rio de Janeiro, em 1993.

Wolinski, muito receptivo e gentil, presenteou-me com um cartum feito na hora, sobre o convite impresso de uma exposição de minha curadoria. Ele gostou muito de estar junto ali com os desenhistas de humor brasileiros.

Charlie Hebdo mudou de redação e lida com o fato de ter-se tornado clássico mundial do humor, distribuído em vários países do mundo, inclusive no Brasil. Penso que prosseguirá com seu espírito crítico, mas um de seus desenhistas, Luz, sobrevivente do atentado, anunciou que deve parar de fazer cartuns sobre Maomé (segundo ele, perdeu a graça). O humor tem muitas vertentes, e é natural que Charlie Hebdo continue sua linha crítica, a observar outras histórias. Creio que se Charlie não tocar mais em determinados assuntos, certamente não o será por medo.

CC: O sr. diria que os caricaturistas de todo o mundo sentiram o atentado como um golpe contra sua criatividade ou imaginação? É possível já observar se ele diminuiu ou redefiniu a caricatura de algum modo no mundo?

LM:  Os desenhistas de humor do mundo todo consideram o atentado ao Charlie o  11 de Setembro dos cartunistas. Contudo, na minha opinião, ali os terroristas internacionais perderam sua batalha em nível  ideológico. Porque aqueles artistas não constituíam a origem de seus problemas ou das guerras propriamente ditas.

Eles eram politizados, pacifistas, gente de imprensa que lutava pela liberdade, pela vida e pela arte através do cartum e da caricatura. Estavam apenas fazendo o seu trabalho, e dentro do estado de direito francês. Orientavam-se pelo humor para questionar o status quo. O ataque foi um atentado a valores básicos e universais muito caros. Viram-se rejeitados e criticados até no mundo mulçumano.

O, importante, os desenhistas continuaram altamente criativos e críticos depois dele. Eis por que, segundo vejo, o atentado potencializou a importância da caricatura em nível mundial. Mostrou que a arte ainda ecoa a célebre definição do Capitão Francis Grose, na apresentação de seu livro Rules for Drawing, with an Essay on Comic Painting, editado em Londres, em 1788: “A arte da caricatura é geralmente considerada um dom perigoso, próprio a tornar seu possuidor mais temido do que estimado [...] e fazendo tremer à simples ideia de ver suas loucuras, seus vícios, expostos à ponta acerada do ridículo aqueles mesmos que enfrentariam com desdém censuras atrozes”.