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Cultura

Crônica do Menalton

Carta às icamiabas

por Menalton Braff publicado 19/02/2016 04h52, última modificação 23/02/2016 15h00
Em 'Macunaíma', a personagem de Mário de Andrade critica o fato de se falar uma língua e se escrever em outra
O linguista Ferdinand Saussure

Depois de Saussure, tenho certeza de que Macunaíma teria outra visão dos fatos

Em sua famosa Carta pras icamiabas, IX capítulo de seu romance Macunaíma, a personagem de Mário de Andrade critica o fato de se falar uma língua e se escrever em outra.

Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. (...) Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar.  (...) ... logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana...

Hoje, depois do desenvolvimento dos estudos linguísticos, depois de Saussure e todos que lhe seguiram os passos, tenho certeza de que Macunaíma teria outra visão dos fatos. Mas valeu pela constatação.

A presença física tem um grau de riqueza na comunicação que jamais será alcançado pela escrita. A voz, suas intenções, os gestos (quem disse que mão não fala?), as expressões faciais, o mover dos olhos, enfim, uma infinidade de detalhes que enriquecem o ato da comunicação oral que não são encontrados na língua escrita.

Além disso, qualquer comunicação, escrita ou oral, assume formas diferentes para diferentes circunstâncias. Mas não só a linguagem sofre transformações. Todo o nosso comportamento. Ninguém vai ao casamento de um amigo vestido de bermuda e calçado de chinelinho-de-dedo.

Não conheço ninguém que vá curtir um sol na praia vestido de fraque e calçado de sapatos de cromo alemão. O comportamento (e a linguagem) está certo quando adequado ao momento e ao lugar.

Já contei, aqui mesmo, a história daquele motorista de táxi que, intuitivamente sabia disso tudo. Quando Manuel Bandeira, trajando seu fardão para tomar posse de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, pegou um táxi (ele, que nunca dirigiu automóvel em sua vida), o motorista não parava de observá-lo pelo retrovisor, abismado com aquele traje incomum. Na primeira oportunidade, virou-se para trás e, muito sério, talvez até solene, perguntou ao poeta:

  − Sois rei?

Ah, meu caro motorista, com sua simplicidade você foi protagonista de uma anedota, mas também nos passou uma lição que jamais deveremos esquecer.