Cultura

Festival de Cannes

Cannes deixa os melhores para o final

por Orlando Margarido — publicado 20/05/2015 13h49
Se a melhor safra da edição 2015 começou atrasada, não menos atrasada está a Palma de Ouro de Jia Zhang-ke
Mountains May Depart

Em 'Mountais May Depart', Jia Zhang-ke reflete sobre a China de hoje, e arrisca um amanhã não menos complexo

De Cannes

Apenas ontem à noite pode-se dizer que começou a segunda semana da competição no Festival de Cannes. Um atraso, sem dúvida, já que passamos da metade do festival sem que houvesse um filme de impacto. E ele veio. É o mínimo do que se pode dizer de Mountains May Depart, o título internacional do filme de Jia Zhang-ke, do realizador chinês mais cultuado do momento.

A China não pensa o mesmo, e ontem soube que o documentário realizado sobre ele por Walter Salles foi proibido no país. Parece mera picuinha, uma má vontade com a reverência que Jia provoca no Ocidente. Ficamos, eu e alguns colegas jornalistas, questionando a razão, pois o filme nada mais é do que um retrato emotivo do diretor, sua relação com a família e a cidade onde nasceu.

Fenyang é mais uma vez o cenário inicial a esta agora crônica de três décadas, inclusive em futuro próximo, das mudanças radicais na China desde que se tornou capitalista. O que mudou nos valores, na família, entre os chineses que ficaram e aqueles emigrados para se ocidentalizar? Há tudo em Mountains... e o que de início parece um tanto banal, pretensioso, aos poucos em mais de duas horas ganha contornos quase épicos.

Jia gosta de surpreender com a variação no tom, no gênero, e Um Toque de Pecado, lançado aqui mesmo em Cannes há dois anos, diga-se, foi ainda mais desconcertante com sua violência latente, seu horror a flor da pele. Era o momento para radicalizar, dizia o diretor. Pode-se dizer que agora ele prefere falar pelo coração, pelo sentimento de uma China que conheceu ainda tradicional e afável, talvez um tanto ingênua no imediato pós-comunismo, e se degrada pela cobiça e pelo dinheiro.

O toque, portanto, não exime o melodramático e apelo fácil da comoção. Na abertura, um grupo de jovens dança um balé engraçado na versão dos Pet Shop Boys para Go West!. Significativo, afinal, para uma geração que sonha com os padrões ocidentais. A juventude está representada no primeiro bloco do filme, no final dos anos 90, pelos dois amigos interessados na mesma garota. Um é ambicioso. Aposta nas minas de carvão e conquista a jovem com carro, celular e a promessa de riqueza.

Quando anunciam o casamento, o outro decide partir para esquecer a paixão. O tempo avança para o período atual, e o casal está separado, ele morando com o filho de ambos na Austrália e a nova mulher, ela de volta a Fenyang, longe da convivência com a criança. Novo corte, e a atenção recai sobre o adolescente no ano de 2025 em crise de identidade e de carreira, envolvido com uma professora mais velha.

Este é o quadro, por assim dizer, dramático. Mas Jia insere suas habituais metáforas, como um pequeno avião que se espatifa no chão a poucos metros da heroína. Mais tarde ela ouvirá no rádio, com seu filho ao lado, sobre o desastre com o avião da Malásia. No voo havia muitos chineses. Como se sabe, o país permite apenas um filho aos casais. Portanto muitas famílias perderam seu único filho na tragédia.

O diretor reflete sobre a nação ontem, hoje, e arrisca um amanhã não menos complexo. Não são muitos nomes atuais com capacidade para pensar e lançar questões de sua (e a nossa?) sociedade. Se a melhor safra de Cannes 2015 começou atrasada, não menos atrasada está a Palma de Ouro de Jia. Veneza já o consagrou. Os franceses, e o júri dos Coen me parece atento a fazê-lo, precisam remediar esse dano. 

Reparação que também mereceria Paolo Sorrentino, mas não especialmente desta vez. Gosto muito de A Grande Beleza, ignorado na competição cannoise há dois anos, e Youth é inferior à homenagem do diretor italiano a Dolce Vita de Fellini. Sua visão da juventude, muito menos idílica do que a primeira parte do filme de Jia Zhang-ke, é na verdade uma ironia pois está no entorno aos personagens velhos de Michael Caine e Harvey Keitel.

O primeiro é um maestro retirado e cínico, acompanhado da filha, papel de Rachel Weisz, abandonada pelo marido. O segundo interpreta um diretor de cinema em busca de inspiração, cercado por seus atores. Ainda chegará uma estrela veterana americana, Jane Fonda, em rápida passagem para tumultuar a pseudo tranquilidade. Estão de férias em um hotel de luxo na Suíça, convivendo com pares e poucos jovens como contraponto. Impossível não lembrar do Oito e Meio de Fellini, embora o filme seja dedicado a Francesco Rosi. 

Quem conhece Sorrentino sabe que a trama é mero pretexto para o realizador incluir seu estilo de excentricidades, bizarro, como acesso a um perfil humano ambivalente. Nem sempre consegue, ou melhor, pode arrastar-se um tanto em busca desse preceito, mas parece que uma boa dose de humor cai bem quando se quer fazer a crítica social. E aí cada um na sua, Jia por vezes cerebral, por vezes melô, e Sorrentino rindo de uma sociedade (apenas a Itália?) baseada no estrelato fugaz, nos artifícios das celebridades.