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Cultura

Crônica do Menalton

Caminhando e cantando

por Menalton Braff publicado 04/12/2015 05h26
Recentemente, voltei a um tempo que muitos nem sabem que existiu
Durval Jr. / Wikimedia Commons
FEB

Soldados da Força Expedicionária Brasileira em Massarosa, na Itália, em 1944

Continuo caminhando, apesar de minhas objeções, porque ninguém pode ficar parado. E para que a sensação de perda (de tempo) não me estrague o dia, abro olhos e ouvidos e colho em minha tarrafa peixes de todo tamanho. Só não canto enquanto caminho, porque isso poria minha segurança em risco.

Ontem cruzei com um velhinho de outros tempos, que já viu e viveu até o que não existe mais. Ele deve saber de coisas como galocha, ficha telefônica, deve ter fumado Liberty e tomado leite com groselha, sem dúvida nenhuma. Pelo menos foi essa a ideia que me ocorreu quando o ouvi gritar, em plena avenida: veeeer-durei-rooo.

A melodia de sua voz, bem, não há como reproduzi-la aqui, mas é a mesma que, resistente, também vem atravessando a bruma dos tempos. Oh, já ouvi essa mesma canção quando adolescente, num dia em que estava namorando na praça, os livros em uma das mãos e o coração na outra.

Depois de ter feito minhas primeiras barbas, ela, a melodia, me tirou da cama em uma manhã de domingo, quando me agradaria muito corrigir os excessos da noite levantando só depois do meio-dia. Não, não saí da cama para pedir que fizesse silêncio ou que cantasse mais. Sua voz foi ficando pequena, cada vez menor, até bater nas paredes da casa e cair no jardim.

Quando o velhinho repetiu seu anúncio, com o fio de uma voz carregada de timidez, voltei, e voltei a um tempo que vocês provavelmente nem saibam que existiu. Eram as marcas da Segunda Guerra Mundial chegando ao Brasil.

Desse tempo, não consigo separar muito bem as coisas. Misturo, por exemplo, rádio com frontaria de prédios de três andares. Coisas assim, meio loucas. À noite, vizinhos reunidos na sala, todos em silêncio, querendo saber quem avançava e quem recuava na Europa. Não sei por quê, mas me vejo trepado na cerca enquanto a rua passa com suas atrações. É uma cálida manhã de sol, e a brisa, muito mansa, corre na direção da Patagônia.

Então um outro velho, um velho que eu já conhecia, vem subindo a rua com dois balaios pendurados de uma vara horizontal que ele suporta no ombro. Abafando sua voz, passa na rua um caminhão movido a gasogênio, soltando para o céu a escuridão de sua fumaça.

Mal passou por mim, e depois que o caminhão levou seu barulho para longe, o velho repetiu: Olha a banana, banana menina, contém vitamina!

Seu anúncio continua existindo em mim. Um dia não existirá mais.

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