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Cultura

Crônica do Menalton

Cada um por si

por Menalton Braff publicado 30/10/2015 04h29
Depois de nos termos tornado partidários do individualismo, não existe mais solução
Wikimedia Commons
Horácio

Horácio imaginado por Anton von Werner: a 'aurea mediocritas' seria a sepultura de nosso sistema econômico?

Recebi outro dia, com muita humildade, os comentários de um professor, pelo menos foi como se apresentou, a respeito das crônicas que tenho cometido aqui. Uma das críticas que me fazia o professor é a falta sentida por ele de comentários meus a respeito da situação vivida pelo Brasil. E nisso tenho de concordar com o mestre. Me dizia ele com a autoridade que lhe confere o título, que meus textos não são analíticos, não se aprofundam nos fatos do nosso dia a dia político.

Me defendo, caro professor. Sou cronista e não ensaísta, ou articulista, ou analista político. Minha matéria é a vida, sobre a qual não necessito de autoridade para falar, entretanto, como homem que mais ou menos vive seu tempo e acumula algumas opiniões sobre o que vê, tenho o direito de opinar. Crônica é opinião, não é conhecimento. Se você concorda com o cronista ou não, isso já é outra história.

Outra crítica, da qual não me defendo porque justa, é o fato de nunca abordar o cancro social que se chama individualismo. Meu caro professor, concordo com sua crítica, mas veja bem, uma das necessidades do capitalismo é justamente o individualismo exacerbado. E nesse sentido nosso sistema tem feito enormes progressos ideológicos ao mesmo tempo em que tem causado imensos estragos humanos. A egolatria é tão insistentemente apregoada, o ególatra é a tal ponto exaltado que para pensar e sentir diferente é preciso aceitar a carapuça de retrógrado, antiquado.

Na escola você tem de ser o primeiro, na igreja todos temos de ser os mais, no clube continua a competição, no bairro, enfim, nossa vida toda é regada de estímulos para que derrotemos os outros porque temos de ser os vencedores. A ideologia do vencedor nada mais é que um apelo à competição. E em tudo isso, somos induzidos ao individualismo consumista, porque a economia não sobrevive sem consumidores frenéticos.

A aurea mediocritas, de que Horácio tanto falava na Antiguidade, seria a sepultura de nosso sistema econômico. Sem a inveja de um vizinho que viu aquele morador na frente de sua casa comprar um carro novo, como é que iria funcionar a indústria automobilista? Calma lá, ambição e inveja são assuntos que demandam mais espaço. Vamos deixar como inveja mesmo.

Enfim, o que quero dizer é que, depois de nos termos tornado partidários do “cada um por si”, não existe mais solução. Vamos ficar gemendo e rangendo os dentes, vamos deblaterar continuamente contra a corrupção e a inépcia de nossos políticos (e nada é mais parecido com o eleito do que o eleitor), e nada vai acontecer. Não somos mais mobilizáveis, e as ações individuais não levam a lugar nenhum. 

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