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Cultura

CD

O ecumenismo redentor de Serena Assumpção

por Tárik de Souza — publicado 12/08/2016 12h10
Ascensão é um álbum coletivo, coproduzido pela cantora e por Pipo Pegoraro e Dipa
Reprodução

Vitimada por um câncer, em março passado, aos 39 anos, como o pai, o vanguardista Itamar Assumpção, morto aos 53, em 2003, Serena Assumpção trabalhou durante cinco anos nesse disco, intitulado inicialmente Namburuquê.

O novo nome condensa seu legado duplamente místico, escudado nos rituais afro-brasileiros do candomblé e da umbanda, sob o rastro estético deixado pela artista. Cada faixa evoca um orixá, mas elas também são endereçadas a personalidades sortidas admiradas pela cantora, como Heitor Villa-Lobos, Madame Satã, Nina Simone, Luz Del Fuego, Leonilson, João da Bahiana, Elis Regina, Clementina de Jesus e Paco de Lucia.

A partir de temas de domínio público, composições próprias e de Gilberto Martins, Serena erigiu um painel de oferendas, definido no encarte como “um gesto de água”, pelo cantor e compositor baiano Tiganá Santana, filiado ao terreiro de nação Angola Tubensi.

Embora assinado por Serena, Ascensão é um álbum coletivo, coproduzido por ela, Pipo Pegoraro e Dipa. O arco de convidados vai do teatrólogo Zé Celso Martinez Corrêa, narrador do texto de Exú, entremeado por sinos de igreja, voz, bombo e xequerê de Karina Buhr, ao mestre orquestral Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz, autor do arranjo da furtiva Iroko, cantada por Mariana Aydar.

O dueto de Céu e Serena conduz ao enlevo Iemanjá (Aqui estou eu/ com minha dor/ recebendo a luz desse chão), enquanto em Xangô Kiko Dinucci cerze Dorival Caymmi ao violão, sob voz enunciadora de Juçara Marçal e sax melífluo de Thiago França.

Ascensão. Serena Assumpção. Selo Sesc

Um sampler do precursor musical dos terreiros, Joãozinho da Gomeia, adorna Pavão, com bateria, reco-reco, apitos, agogô, caxixi e voz de Curumim. De Tetê Espíndola a Tulipa Ruiz, Moreno Veloso e Domenico Lancellotti, a diversidade das narrativas enlaça o roteiro num ecumenismo redentor. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "Ecumenismo redentor". Assine CartaCapital.

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