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Sônia Braga, contra o terror golpista

por Rosane Pavam publicado 01/09/2016 04h44
A atriz protagoniza o suspense "Aquarius"
Victor Juca
Sônia Braga

No filme de Kleber Mendonça, Sônia Braga, mulher de ferro, combate a cultura da especulação

O diretor Kleber Mendonça Filho navega nas contradições sociais brasileiras. Mas não romantiza cangaceiros, favelados, crianças abandonadas. Ele quer a contradição localizada no interior da sociedade que as promove. Em O Som ao Redor, seu primeiro longa, quem rege a especulação imobiliária, a casa limpa do brasileiro médio, é o velho coronel. E sob o inferno de habitações urbanas verticais, construídas a partir do suor dos outros, a mãe burguesa busca matar a sede afetiva na máquina de lavar.

O drama de Mendonça é psicológico e sua realização cinematográfica, tensionada pelo suspense, que ele cita ao reencenar um iluminado banho de sangue. Nós que nos fechamos nas gaiolas dos condomínios mal reconhecemos servir à fúria de velhos tubarões. Nós, homens e mulheres, constituímos estranho alimento para este animal que nos faz cumprir espécies de sentenças penais à beira-mar.

Tal mundo repete-se em Aquarius, seu segundo longa. De volta, Mendonça traz a especulação, o cupim do capital a roer a madeira inventiva do Brasil. E, como no filme anterior, à mulher cabe ilustrar, às vezes risonhamente (como na sequência em que desbanca suas jovens entrevistadoras ignorantes), o centro da farsa, a casa dos cupins.

Aquarius - Kleber Mendonça 

O diretor parece querer amplificar a força feminina ao personalizá-la em Sônia Braga, um ponto de luz do cinema e da tevê que desde o início de carreira emula os gestos encenados nesta terra, nossas pequenas loucuras e ironias, o menear de nossas cabeças. Sua protagonista Clara, que empenha uma luta contracultural pela manutenção de direitos civis e da propriedade do apartamento onde mora, fala como o brasileiro. E age em uma ambientação quase televisiva, como se presa a uma minissérie sóbria, porque pela tevê nos igualamos. A escolha de belas canções, escritas no passado por nomes como o de Taiguara, por exemplo, entrega a intenção de que ali se realize um conto popular. 

A fraqueza e a força do filme residem nesta obsessão de Mendonça em tornar Clara indestrutível, sem as contradições e hesitações do homem comum, a enredar os vilões que falam baixo, como o jovem especulador imobiliário representado com excelência por Humberto Carrão.

A musculatura de ferro de Clara talvez se explique pela inclinação natural do diretor ao suspense, gênero aqui desenhado paulatinamente, com extraordinário efeito final. Mas e se quiséssemos ver em Clara alguém adiante da força imbatível? Entendê-la rica porque hesitante, íntegra enquanto recolhida? Então a procuraríamos em outro filme distante deste, que se tornou simbólico, a partir de sua participação em Cannes neste ano, da luta contra o terror golpista.

*Reportagem publicada originalmente na edição 916 de CartaCapital, com o título "Contra o terror golpista". Assine CartaCapital.