Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Bravo! / Alessandra Leão, sob uma nova bússola

Cultura

CD

Alessandra Leão, sob uma nova bússola

por Tárik de Souza — publicado 18/03/2016 17h04, última modificação 19/03/2016 10h18
O mergulho da protagonista em sua arte visceral
Língua

Num acendrado maracatu em parceria com Caçapa, acicata: Lavo meu corpo de lã/ corro com patas de bicho

Ex-integrante do seminal grupo pernambucano Cumadre Fulozinha, iniciado em 1997, incubadora da afiada Karina Buhr, a compositora e cantora Alessandra Leão navega solo orientada por outra bússola. No primeiro disco autoral, Brinquedo de Tambor, em 2006, dialogava com as cordas do violeiro e guitarrista Rodrigo Costa Rodrigues Barbosa, o Caçapa.

Produzida por ele, gravou Dois Cordões, em 2009. E depois de Folia de Santo (2008) e da trilha sonora do espetáculo teatral Guerreiras, de Luciana Lyra, em 2010, Alessandra inova ao seccionar em lançamentos espaçados a trilogia de EPs Pedra de Sal, Aço e Língua. Em outra produção de Caçapa, os três CDs, embalados em primorosas artes gráficas, operam como capítulos de progressiva intensidade do mergulho da protagonista em sua arte visceral.

Pedra de Sal, Aço, Língua. Alessandra Leão. ybmusic

Sem se desligar das fontes primais, ela rejeita ortodoxias. Tanto abre parcerias com o vanguardista paulistano Kiko Dinucci (outro guitarrista do projeto) em Tatuzinho e na aguda Devora o Lobo (Lambida, comida/ grita arranha/ e as unhas já estavam de fora) quanto revisita, em Doutrina de Iemanjá, toadas do Xangô do Recife e do Babassuê de Belém do Pará, recolhidas por Mário de Andrade. Cortei a carne até sangrar/ e o que sai de dentro dela é aço, decreta em círculos sonoros concêntricos a autoral faixa-título de outro dos EPs.

Num acendrado maracatu em parceria com Caçapa, acicata: Lavo meu corpo de lã/ corro com patas de bicho. Ná Ozzetti dueta com a solista na litania Pássaros, Mulheres e Peixes, pontilhada por gonguê e maracas. E no epitelial manifesto do terceiro EP, Alessandra concita entre guitarradas lânguidas: Tinha uma seca na língua/ uma sede que nunca passa/ encosta a boca na minha/ e um rio em mim se alastra.