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Sem mofo no retrovisor

por Tárik de Souza — publicado 27/09/2016 03h43
Pedro Miranda abre alas ao flanco baiano do gênero
Reprodução
Pedro Miranda

Capa do CD de Pedro Miranda

Cantor revelado no movimento de revitalização da mítica Lapa carioca, Pedro Miranda reciclou antigos sambas no relevante CD Coisa com Coisa (2006), e singrou inéditas de autores do bairro, em Pimenteira (2009).

A começar pela iconoclasta faixa-título (não fala das cadeiras da mulata/dos murmúrios da cascata/ ou do amor no carnaval), Samba Original, produzido pelo violonista Luís Filipe de Lima, outro lapeano militante, avança na direção da miscigenação estética, sem abandonar o garimpo de especiarias.

Como a matreira Garota dos Discos (garota que vende meu disco/ por trás do balcão, toda prosa/ adora Chopin/ conhece de cor Noel Rosa), do sagaz Wilson Batista (com Afonso Teixeira). Gravada pelo conjunto vocal Quatro Ases e um Coringa, em 1952, ela encerra sob o chiado da agulha nos sulcos do velho suporte dos 78 rotações.

Roufenhas guitarras de Pedro Sá e Arto Lindsay faíscam na inusitada parceria de Ataulfo Alves e Assis Valente, Batuca no Chão, de 1944. 

Lápis percutido no dente adorna o tortuoso samba de gafieira Amanhã Eu Volto (Roberto Martins/Antonio Almeida), sincopado pelo paulista Vassourinha, em 1942. O lado sambista do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, retine em Meu Pandeiro (com Ary Monteiro), originário do fraseado de Cyro Monteiro, de 1947, um dos inspiradores de Miranda.

O cantor também abre alas ao flanco baiano do gênero, do requinte de Batatinha (Imitação) ao samba de roda, de Roque Ferreira (Samba de Dois-Dois, com Paulo César Pinheiro), onde duelam o berimbau de Marcos Suzano e o violino de Nicolas Krassik.

Outro baiano, o convidado Caetano Veloso, remete à era do rádio, na linhagem da dupla inicial Francisco Alves e Mario Reis, ao dialogar com o solista, no clássico A Razão Dá-se a Quem Tem. Uma visita ao passado sem mofo no retrovisor. 

Samba original. Pedro Miranda. Independente

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