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Cultura

CD

Os arabescos líricos de Lourenço Rebetez

por Tárik de Souza — publicado 17/08/2016 04h55
Um tecido de diversas melodias no álbum "O Corpo de Dentro"
Divulgação
Capa

Capa do estruturalista O Corpo de Dentro

Embora também reconhecido como pianista, o instrumento do jazzista Duke Ellington (1899-1974) era a orquestra. Ele compunha pensando no desempenho de cada músico, e como estes sons se organizariam numa polifonia, quase nunca simétrica.

No Brasil, pode-se creditar procedimento semelhante a maestros de caligrafia autoral acendrada como Tom Jobim e Moacir Santos. Dentro dessa proposta estética, o guitarrista paulista Lourenço Rebetez estreia a bordo do estruturalista O Corpo de Dentro, produção de outro guitarrista, o vanguardista americano Arto Lindsay. 

Formado em composição de jazz na escola Berklee, em Boston, nos EUA, Lourenço evoca Ellington em entrevista ao historiador Zuza Homem de Mello, no texto de apresentação. “Cada instrumento não atua só como suporte para a melodia principal, tem identidade melódica própria.” E transpira Moacir Santos logo no contraplano de sopros e percussão da faixa Imã

Esgrimindo a harmonia como “um tecido de diversas melodias”, ao evitar a habitual exposição do tema seguida de solos, Lourenço erige módulos semoventes (Sombrero) ou cerze nas cordas universos de naipes paralelos (Ozu). No seu painel de influências do jazz também cintilam o muralista Gil Evans, eleito de Miles Davis, e “o desenvolvimento de tensão, a topografia do arranjo”, do saxofonista Wayne Shorter. 

O Corpo de Dentro. Lourenço Rebetez. Independente

Mas, sobretudo, sua sintaxe apoia-se nos ritmos do candomblé, aguerê, barravento, vassi, opanijé (Interlúdio), lições do baiano Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz.  Do confronto de tessituras do elucidativo O Avesso das Coisas, da Abertura, a alternância de climas conduzida pelos líricos arabescos do guitarrista em Pontieva, assolada por rufos de bateria, o disco de Lourenço não se exaure na linearidade. Abre-se a novas interpretações a cada audição. 

*Publicado originalmente na edição 914 de CartaCapital, com o título "Arabescos líricos". Assine CartaCapital.

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