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O jovem Brecht encontra o “lixo” e o “luxo” de São Paulo

por Alvaro Machado — publicado 21/03/2016 05h22
A peça de juventude do dramaturgo ocupa nos próximos dois meses os espaços da antiga fábrica reformulada por Lina Bo Bardi
Renato Mangolin
Na-selva-das-cidades

Na atual versão da Mundana para Brecht, a cenografia de Lina Bo constitui inspiração para a escultora Laura Vinci

Após processos abertos ao público, em 2015, no qual Na Selva das Cidades foi encenada ao longo de cinco dias, a Mundana Cia. apresenta a versão condensada desse trabalho de 16 meses de pesquisas e ensaios.

Agora com três horas de duração, a peça de juventude de Bertolt Brecht ocupa nos próximos dois meses os espaços da antiga fábrica de geladeiras convertidos pela arquiteta e pensadora Lina Bo Bardi no Sesc Pompeia (1977).

Nome basilar do Teatro Oficina, que encerrou sua fase madura com a mesma peça de Brecht, em 1969, Lina também realizou cenários e figurinos daquela montagem e, já nos anos 1990, reformulou de maneira revolucionária o prédio do Oficina no Bexiga, recém-considerado por especialistas de todo o mundo como um do mais belos edifícios teatrais em funcionamento.

Na atual versão da Mundana para Brecht, a cenografia de Lina Bo constitui inspiração para a escultora Laura Vinci, que também assina o “desenho de arte” da montagem.

Após antropofagização d’O Idiota dostoievskiano e de um longo aprendizado ao lado do formidável diretor russo Adolf Shapiro (Tchekhov 4, Pais e Filhos), a cia. mergulhou como coletivo nas inúmeras possibilidades interpretativas do texto dramático, que foi traduzido novamente para o português pela especialista em dramaturgia alemã Christine Röhrig.

Ela o fez com atenção especial à personalidade do grupo, bem como acompanhamento íntimo de seus processos de trabalho, estendidos por todas as regiões da capital paulista. Nessa proposta, a cia. mergulhou nos aspectos oximoros e antitéticos que caracterizam a megalópole, de bordeis paupérrimos do bairro da Luz e do “lixo” dos baixios de viadutos degradados ao “luxo” do novo Teatro Santander, na av. Juscelino Kubitschek, a ser inaugurado em breve.

Na Selva das Cidades. Mundana Cia. de Teatro. Sesc Pompeia, em São Paulo, até 15 de maio

Na revivescência desse texto de um Brecht ainda bastante indomado, com traços expressionistas, a diretora Cibele Forjaz funcionou bem mais como elemento polarizador para tantos pesquisadores da linguagem teatral reunidos.

Ainda que sob o fio da tradução estabelecida por Röhrig, cada ator se converte em recriador de seu personagem, capaz de magnificar e luzir as caracterizações arquetípicas plasmadas pelo dramaturgo e de efetivar seu real diálogo com o público.

Para tanto, foi necessário o longo processo, ou laboratório, na vivência integral preconizada pelos teatrólogos Tadeusz Kantor e Jerzy Grotowski, entre outros. Assim, a Mundana projetou a crítica brechtiana do capitalismo contra o horizonte paulistano, carrossel frenético de migrantes espremidos e logo descartados e epítome de desigualdades perversas, a ecoar o núcleo dramático brechtiano.

Terá valido a pena a conjugação de tantas coordenadas de produção, com cerca de trinta nomes na ficha técnica, e o tempo tão extenso empregado, ainda que se tenha esbarrado em descontinuidade do patrocínio inicial, obtido via Lei de Fomento ao Teatro de SP (municipal).

Peça-Brecht
A cia. mergulhou nos aspectos oximoros e antitéticos que caracterizam a megalópole (Foto: Renato Mangolin)

De outro lado, tais acidentes de trajetória até mesmo se harmonizam com a “obra sempre em obras”, como diz um poema do próprio Brecht musicado especialmente para a montagem. O resultado se equipara às dinâmicas criativas abraçadas pelo Teatro Oficina em sua mítica versão, intensa a ponto de marcar a própria dissolução do grupo tal como este se configurava antes de seu exílio político dos anos 1970.

Na montagem da Mundana, a contaminação das esferas do teatro e da vida é exemplarmente visualizada no elemento cenográfico, como o ringue de boxe idealizado por Vinci, que há uma década colabora com o grupo. O próprio Brecht integrara esse elemento nas montagens por ele dirigidas nos anos 1950 em Berlim, pois acreditava que o público desse esporte participava com certa autoridade do espetáculo da luta, atitude que esperava também do público teatral.

Assim, o duelo final entre Garga e Schlink, as duas faces da mesma moeda do Capital, ocorre nesse ringue misto de estrebaria e açougue, tão sugestivo de crua selvageria, como nas telas da última fase do pintor irlandês Francis Bacon. O público assiste à luta em pé ou agachado, como numa rinha de galos.

Dentre as muitas ousadias da cia. paulista para esta encenação, pede-se ao público ligar seus celulares, para conexão intranet que integrará a narrativa. Tal gênero de intercorrência contemporânea, que se utiliza de vídeos do artista mineiro Éder Santos, também projetados sobre atores e cenários, indicam atenção à dinâmica histórica. Estas são, no entanto, conjugadas sem arestas à decupagem do texto pela via de recursos épicos de encenação já consagrados no teatro moderno.

Entre celulares, vídeos, caminhadas pelo espaço do Sesc e entrega absoluta de atores de possibilidades para além da própria atuação, como Luah Guimarãez (senhora Garga etc.), Aury Porto (Schlink) e Lee Taylor (George Garga), somam-se recursos suficientes para varrer de vez as pechas de “obscuro” e “lacunar” apostas a esse jovem Brecht, aqui revelado como autêncico caleidoscópio fausto-goethiano da última centúria. Ante tal recuperação, pode-se antecipar o espanto da crítica europeia quando a montagem por lá aportar.

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