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O existencial de Memórias de Adriano e o teatrão de Tudo no seu Tempo

por Alvaro Machado — publicado 12/02/2016 18h13
O existencialismo em 'Memórias de Adriano' e o "teatrão" dos anos 1960 em 'Tudo no seu Tempo'
Renato Mangolin

Desde a publicação, 1951, o romance Memórias de Adriano  conheceu várias safras de popularidade. A autora belga Marguerite Yourcenar (1903-87) foi a primeira mulher alçada à Academia Francesa.

Assim como na narrativa da decadência do imperador romano após a morte do amado, o catamita Antínoo para o qual conseguiu aura de semideus, Yourcenar abordou com frequência a homossexualidade masculina.

Diz-se que viveu à larga, com paixões por homens e mulheres e boêmia entre Paris, Atenas e Nova York, onde também ensinou. Legou fundação para a preservação de vida selvagem.

O existencialismo inspirado de Adriano mereceu boa adaptação de Thereza Falcão e interpretação em profundidade de Luciano Chirolli, 54 anos, talvez o mais memorável ator de sua geração.

Suas escolhas desenham leque de coerência, com pontos altos em Büchner, Lorca, Dürrenmatt, Fassbinder e parcerias com Maria Alice Vergueiro, entre elas As Velhas, pela qual Chiurolli recebeu prêmio Shell de melhor ator, e Why the Horse?, ainda a ser apresentada em cidades de todo o País.

Memórias de Adriano. Direção: Inez Viana. Teatro Jardel Filho (CCSP), até 28 fev. No Teatro Sesc Copacabana a partir de 14 de março.

A débâcle de Adriano parece perturbar o intérprete a ponto de causar tropeços de fala, que conferem, porém, ainda mais pungência ao monólogo. O texto perturbam também as plateias, pois Yourcenar conferiu universalidade incontestável ao drama de maturidade do poderoso romano, a ultrapassar fronteiras de classe e de gênero sexual.

O monólogo ganhou, ainda, uma espécie de resposta musical contínua, nos instrumentos eletrônicos tocados ao vivo pelo músico Marcello H. Já a moldura cenográfica contemporânea simples e eficaz, com centenas de  radiografias médicas a compor painel de luz, tem concepção de Aurora dos Campos.

Asas à imaginação

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“E se pudéssemos revisar e mudar nossas vidas?” (Ligia Jardim)

O dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, 76 anos, é fenômeno de produção teatral, com 78 peças montadas até hoje, e por isso campeão mundial de encenações, uma vez que a maneira como trata seus temas é apreciada do Japão à Patagônia. Ao deixar-nos, o cineasta francês Alain Resnais (1922-2014) preparava o quarto filme baseado em peça do xará londrino.

Herdeiro do teatro de boulevard da mais sofisticada escrita, com a chamada carpintaria teatral em habilidade máxima, Ayckbourn imaginou, em 1993, quiproquó a envolver inesperado túnel do tempo e um sexteto urbano transportado entre os anos 1986 e 2036 pela mágica de uma passagem oculta entre quartos de um hotel.

Comunicating Doors compreende anacronismos também em nível de produção, um “teatrão” como os dos anos 1960, a incluir intervalo e o pacto em que o espectador deve aceitar previamente convenções e ilusões do palco italiano, burguês, e tornar-se cúmplice dos intérpretes.

Tudo no seu tempo. Direção: Eduardo Muniz. Teatro Jaraguá (SP), até 20 de março.

Evolui do inseguro ao tocante o registro dado a Cynthia Falabella para a prostituta ingênua, centro da questão embutida neste tablado: “E se pudéssemos revisar e mudar nossas vidas?”.

Na direção, o também ator carioca Eduardo Muniz, 32 anos, revela desenvoltura com a troca alucinada de quadros de quartos de hotel e épocas diversas, mesmo com o budget claramente limitado de produção.

Ao estagiar ao lado de sir Ayckbourn, em Scarborough, no litoral da Inglaterra, Muniz tornou-se aluno amigo do autor e foi convidado, em 2013, para hospedagem em sua casa e a estreia local de Chegadas e Partidas, a peça que Resnais iria filmar. Muniz traduziu vinte textos do dramaturgo e atuou ou dirigiu em quatro deles.