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O conflito da arte

por Orlando Margarido — publicado 19/05/2016 06h09
Ao abordar a guerra, Luiz Rosemberg Filho reflete a própria batalha pela invenção
Guerra do Paraguay

Em Guerra do Paraguay, inconformismo

*Do Recife

Autor de uma obra experimental e inventiva de mais de 50 títulos, o carioca Luiz Rosemberg Filho, de 73 anos, reconfirmou sua condição de iconoclasta incompreendido.

Um dos seis concorrentes do CinePE Festival do Audiovisual, com Guerra do Paraguay, o diretor viu seu longa ser reconhecido pelos críticos com o Prêmio Abraccine, mas foi relegado na premiação oficial, que lhe concedeu, como consolo, um Troféu Calunga pelo conjunto da carreira.

No palco, Rosemberg apontou a qualidade inferior e o apelo fácil de alguns dos concorrentes premiados. Em seguida, desabafou a CartaCapital. “Ninguém quer mais um cinema para pensar, é só entretenimento.” 

No caso de seu novo filme, o estímulo ao desafio vem pelo expediente brech­tiano, habitual em seu cinema. Mulheres levam uma carroça com esforço por uma estrada erma. São uma trupe mambembe.

A matriarca de idade, uma Mãe Coragem, morre e suas duas filhas prosseguem, a mais nova com problemas mentais e dependente da outra. O universo de guerra é então confirmado pela chegada de um soldado estropiado, mas cioso de seu heroísmo da luta vencida contra Solano Lopes.

Guerra do Paraguay. Luiz Rosemberg Filho. Caixa com 5 DVDs Cavídeo.

Tem início uma discussão ríspida entre ele e a atriz mais madura sobre o horror das guerras, a barbárie em oposição ao valor da arte. “Parece esquecido que as guerras não são a normalidade, como esta vivida hoje no Brasil. Ela me entristece, desencanta.”

 Seu filme é um manifesto antibélico e humanista, na linha de Jean Renoir. Rosemberg, um cinéfilo, tem inspirações diretas em Ingmar Bergman e Bela Tarr, de O Cavalo de Turim. Há o mesmo preto e branco e o som da ventania desafiadora do filme do húngaro.

Este se baseou em Nietzsche, outra das fontes agora. Portador de uma limitação física desde criança, Rosemberg sempre leu muito e o pai comunista deu-lhe entendimento político. Frequentou o CPC da UNE, conviveu com Glauber Rocha, Leon Hirszman e Joaquim Pedro.

Integrou uma geração pós-Cinema Novo. Teve obras censuradas nos anos 1970. Crônicas de um Industrial poderia ter competido no Festival de Cannes, mas a ditadura não deixou pela representação de suicídio do protagonista. 

Jardim das Espumas só foi liberado porque os censores não entenderam a metáfora do visitante do futuro, que busca entender a situação em meio aos sequestros dos tempos de chumbo. Esses filmes esquecidos saem agora num pacote de DVDs da Cavídeo com outros três, incluí­do o recente Dois Casamento$.

É a chance do reconhecimento ainda que tardio, condição que o próprio realizador parece ver como utópica. 

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