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Bobby McFerrin, no passo de Fred Astaire

por Rosane Pavam publicado 29/02/2016 14h23
O norte-americano aproxima sua arte à do dançarino ‘‘leve, profundo, artesanal e jovial’’
Bobby-Mcferrin

Nunca imaginei outra vida, embora às vezes pense que uma existência monástica tivesse sido correta para mim

A reportagem abaixo foi publicada na quinta-feira 25, antes de a assessoria do evento Festival Música em Trancoso informar que o músico Bobby McFerrin, com apresentações confirmadas para os dias 5 e 7, dentro do evento, cancelou sua vinda ao Brasil por problemas de saúde. A curadora do evento, Sabine Lovatelli, expediu um comunicado oficial à imprensa sobre o cancelamento na sexta-feira 26.

"Além dos dois concertos anunciados, Bobby, entusiasmado com a proposta do Música em Trancoso, havia programado um terceiro concerto extra - que ocorreria dia 12 de março, à tarde, no próprio Teatro L'Occitane - e um espetáculo lúdico gratuito para a comunidade de Trancoso. Os dois eventos seriam anunciados na sexta-feira, dia 26." Segundo Lovatelli, todos os demais programas do Música em Trancoso seguem inalterados. "Serão oito dias de concertos com grandes estrelas, sendo três deles gratuitos." 

Bobby McFerrin cresceu em um lar musical na Manhattan de origem. Os pais viviam de cantar. Ele era barítono do Metropolitan Opera, dublador de Sidney Poitier em uma versão cinematográfica de Porgy and Bess, enquanto ela, solista soprano, dava aulas de voz.

“E então pensei que seria diferente comigo, que me tornaria instrumentista”, diz. “Eis por que me preparei seriamente ao clarinete e comecei como pianista aos 14 anos. Mas precisei chegar aos 27 para compreender que seria, como meus pais, um cantor.”

Não qualquer um deles, diga-se, e não, pelo menos, um talento colado à dramaticidade operística, mas um novo tipo de profissional. Sua voz evocaria todos os instrumentos de uma orquestra e ele se revelaria um virtuose a partir do ritmo nos pés, quase sempre descalços sobre o palco, em apresentações a cappella

Durante o Festival Música em Trancoso, como maestro da Orquestra Experimental de Repertório, dia 5, e ao lado de Cesar Camargo Mariano no dia 7, McFerrin novamente espera atingir o público com os pés dançarinos, sem antecipar o repertório que escolherá.

“Sou muito tímido, na realidade. É fascinante o que pode acontecer quando a gente leva todo o público a cantar”, diz, à véspera de completar 66 anos, dia 11. Quando pensa nas referências do passado, sua imaginação voa até Fred Astaire. Facilmente desejaria ter sido como ele, “tão leve e ainda assim profundo, artesanal e jovial”. 

Ele que amava os discos de Sergio Mendes diz não pensar demais sobre sua especialidade, nem sobre o futuro da música. “Sou um cantor, não um musicólogo. Apenas ouço, usufruo e canto. Nunca imaginei outra vida, embora às vezes pense que uma existência monástica tivesse sido a correta para mim.”

Reverencia os educadores musicais, que com seu ofício podem “mudar o cérebro humano”. E jamais lamenta o sucesso mundial que sua canção Don’t Worry, Be Happy fez há três décadas. “Sou muito grato que ela tenha se tornado tão amada por todos. Foi gravada com sete canais de voz e eu nunca a interpretei ao vivo. Muitos a conhecem e eu gosto de oferecer ao público sempre algo novo.” 

*Publicado originalmente na edição 890 de CartaCapital, com o título "No passo de Fred Astaire"

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