Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Bravo! / Névoas poéticas do arauto da dor

Cultura

Música

Névoas poéticas do arauto da dor

por Tárik de Souza — publicado 08/04/2016 03h50
O cantor e compositor Rômulo Fróes traz ao palco parte da obra sombria de Nelson Cavaquinho
Divulgação
Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho tem parte de sua obra sombria revisitada por seu discípulo Rômulo Fróes

Bardo asceta, despido de ambições materiais, que deambulou seu samba assimétrico pelos cabarés bandidos da noite carioca, Nelson Cavaquinho (1911-1986) tem parte de sua obra sombria, equilibrada em acordes arrevesados, revisitada por seu discípulo, o compositor e cantor Rômulo Fróes, do sincrônico grupo Passo Torto.

Rei Vadio – As canções de Nelson. Cavaquinho. Rômulo Fróes. Selo Sesc

Vizinho da atonalidade, com seu violão beliscado na vertical, voz dilacerada pela boemia, Nelson é ressignificado por instrumental aberto ao estranhamento. Uivos de sintetizadores e cuíca, guitarras estertoradas e incisivo trombone convivem com caixa, agogô, pandeiro, ganzá, nem sempre percutidos de forma convencional. “O trabalho de Nelson foge à ambivalência moderno/arcaico que atravessa toda a produção dos anos 50/60/70, entre o otimismo da primeira bossa nova e o dilaceramento tropicalista”, escreveu Nuno Ramos no ensaio Rugas, publicado na revista Serrote e reproduzido no encarte.

capa rei vadio.jpg
Rei Vadio: o lado sombrio de Nelson Cavaquinho

Habitual parceiro de Fróes, Nuno é o autor da letra inédita para o choro instrumental Caminhando, de Nelson, dialogado com uma das convidadas, Ná Ozzetti, escoltada por tamborim. Dona Inah, de timbre próximo ao do homenageado, torna ainda mais pungente a funérea Eu e as Flores. Um sax em roufenhas escalas emoldura um soturno Criolo em Luz Negra.

O desterro temporal e metafísico do autor cintila ainda mais na relativa limpidez lírica de Fróes, em dardos como Mulher sem Alma (quase passei fome/ para honrar teu nome), Luto (a minha mágoa quase deformou meu rosto/ repare bem que não é pouco o meu desgosto) e nos implacáveis versos, eu sou erva daninha/porque tu és a minha raiz. Mesmo o sol, que há de brilhar mais uma vez, no fecho remissivo de Juízo Final, vem toldado pelas névoas poéticas deste impenitente arauto da dor.