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Na Berlinale, um salve morno para a comédia dos Coen e seus astros

por Orlando Margarido — publicado 11/02/2016 16h33, última modificação 11/02/2016 16h35
O Festival de Berlim começa com destaque para "Hail, Caesar!", filme de Joel e Ethan Coen com elenco cheio de estrelas
Divulgação
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Josh Brolin e Tilda Swinton em cena de "Hail, Caesar!", ambientado na Hollywood dos anos 1950

De Berlim

Não foi um grande "salve!", mas o 66º Festival de Berlim começou bem, com o humor ligeiro, autorreferente dos irmãos Coen e seu Hail, Caesar! Vieram à Berlinale, cuja gala ocorre nesta quinta-feira 11, com sua trupe de estrelas, entre elas Josh Brolin, Channing Tatum,​ Tilda Swinton e George Clooney.

Quando este está presente, já se sabe o que esperar. Clooney veste uma personagem também fora das telas e se faz de sarcástico e espirituoso todo o tempo. E não deu outra na coletiva de imprensa que se seguiu à exibição para jornalistas. Houve piadas, flertes e até alguma reflexão séria a respeito do engajamento social do ator, preocupado com questões de conflitos civis e causas humanas no mundo. Mas o que acaba por pesar é a descontração. Afinal, trata-se de Hollywood e não é outro o assunto do filme.  

Mas como em Barton Fink, Joel e Ethan tratam dos bastidores e de um starsystem que não existe mais ​e opera hoje​ em outra moeda.

​Mas será que mudou tanto assim? ​

No filme, eles recuam aos anos 50 para apenas em parte referir a algo real. A personagem de Brolin é Ed​die​ Ma​nni​x, produtor e executivo de grande estúdio que existiu, mas foi, segundo os próprios diretores, pintado com perfil amenizado, um sujeito muito mais simpático do que foi na verdade.

Da figura controversa que teria conexões com a máfia sobrou a devoção católica e o tino para descobrir e tornar intérpretes canastrões em estrelas. Ele está às voltas com as demandas de sempre de uma grande máquina de fazer sucesso quando seu principal astro, o tipo um tanto canastrão vivido por Clooney, é sequestrado do set durante as filmagens do drama romano a que se refere o título. 

George Clooney
George Clooney vive o canastrão Baird Whitlock (Foto: Divulgação)

Não se trata de um épico apenas histórico, mas bíblico também, pois há o encontro do general de Clooney com Jesus e a cena de Ma​nnix reunido com os religiosos de várias correntes é hilária. Quem o rapta são os comunistas interessados no dinheiro da recompensa para financiar a causa. A ligação entre os dois lados é feita por um intérprete que lembra Gene Kelly​, em tomada musical de sapateado (Tatum)​. 

As referências então seguem, como Scarlett Johan​s​som de estrela temperamental, mas os Coen não autorizam associações. Quiseram trazer de volta uma memória que lhes é cara também como cinéfilos. A Berlinale talvez não sirva de imediato a esse tipo de cinema de leveza ​cômica​, com um riso que nem todos devem captar por referir-se a um passado distante.

É um festival de marca política, destinado a cinematografias que justamente não costumam ecoar, ter lugar ao sol, na máquina de triturar que é Hollywood e o apelo dos blockbusters.

Nesse sentido, nada foi melhor que as palavras inicias da presidente do júri este ano, Meryl Streep, na conferência de apresentação de seu time. Um festival deve ser o momento afinal de reflexão sobre o mundo que nos cerca e não se ​pode​ aceitar nada menos que isso no período sombrio que estamos vivendo. 

Para nós, e não falo do Brasil apenas, este ano em representação pequena nas seções paralelas, é uma vitrine importante para a América Latina e para aquela produção em geral dita mais alternativa, de cunho mais artístico se assim se preferir.

Vincenzo Bugno, o responsável pelo World Cinema Fund, um programa de apoio a realizadores novos de todo o mundo, integra a seleção para a competição principal e comentou informalmente que ela está de altíssimo nível este ano. Alguns nomes são conhecidos, como o bósnio Danis Tanovic ou o ​suíço de origem​ espanhol​a​ Vincent Perez, também ator de prestígio.

O iraniano Rafi Pitts é habitué ​de Berlim e​ apresentou seu filme anterior na competição há cinco anos, o perturbador The Hunter​, assim como o dinamarquês Thomas Vinterberg.

​Também será o momento de confirmar se o vencedor do Leão de Ouro em Veneza, com o fraco documentário Sacro GRA, apresenta algo melhor com Fuocoammare. ​

Outros​ realizadores​, e estes costumam ser a melhor surpresa, devem ser descobertos aqui. Portugal está com representação fortíssima. Volta ao concurso com Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, três anos depois de Tabu, de Miguel Gomes. Traz ainda mais quatro títulos nas paralelas.

Mas se o sucesso não se mede apenas pela seleção oficial, o retorno de Anna Muylaert depois da ótima acolhida no ano passado de Que Horas Elas Volta?, com prêmios de público e crítica, já vingou.

A primeira exibição de Mãe Só Há Uma está com ingressos esgotados, em sessão em que o público tem a preferência. Há mais dois filmes brasileiros também no Panorama: Curumim, de Marcos Prado, e Antes o Tempo Não Acabava, de Sergio Andrade e Fabio Baldo.

Temática amazônica, indígena. O painel alemão gosta também do olhar as etnias diversas, como confirmou por aqui há alguns anos Cao Hamburger com seu Xingu. ​

Matheus Nachtergaele
Matheus Nachtergaele estrela 'Mãe Só Há Uma', novo filme de Anna Muylaert (Foto: Divulgação)

 

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