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Naná Vasconcelos, o Jungle Man

por Ana Ferraz publicado 11/03/2016 15h37, última modificação 12/03/2016 09h24
O músico deu novo status à percussão
Clayton de Souza/Estadão Conteúdo
Naná-Vasconcelos

"O berimbau mudou a minha maneira de ouvir. É muito zen. É corpo e alma"

Nos anos 1970, quando Naná Vasconcelos saiu pelo mundo para dividir o palco com nomes consagrados como Pat Metheny, B.B. King, Paul Simon, Jean-Luc Ponty, plateias pouco informadas, mas mesmerizadas pelo espetáculo, referiam-se a ele como Jungle Man.

Aquele instrumento estranho só poderia vir da Floresta Amazônica. “No meio de um solo percebi que ninguém ali jamais havia visto nada parecido.”

O pernambucano Juvenal “Naná” Vasconcelos cresceu ao som do berimbau e por ele foi irremediavelmente seduzido. “Ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. É corpo e alma. Ele me fez entender que o primeiro instrumento é a voz, e o melhor é o corpo”, declarou ao site de entrevistas Gafieiras.

Autodidata, batucava nas panelas e aos 12 anos se apresentava em bares e clubes. A popularidade veio ao tirar o berimbau das rodas de capoeira e colocá-lo em destaque no palco. Em suas mãos, o instrumento de origem angolana ganhou status de solista. No início, temeu a reação dos puristas. Inovar poderia ser entendido como um modo de ferir a tradição.

Foi inevitável. Inseriu o berimbau no contexto do jazz e do blues, transcendeu ao transformar o instrumento de rítmico em melódico. Ganhou notoriedade e respeito internacional, quebrou protocolos ao substituir discursos por música nas muitas premiações recebidas. Só Grammy foram oito. Fora o título de doutor honoris causa concedido em 2015 pela Universidade Federal de Pernambuco. 

Encheu de lirismo a trilha sonora da animação O Menino e o Mundo e recentemente se trancou no estúdio com Zeca Baleiro e Paulo Lepetit para gravar Café no Bule. “Me puseram para cantar, imagine, logo eu”, debochou, energia juvenil, feliz entre os amigos. 

Na manhã da quarta 9, o percussionista não resistiu a complicações decorrentes de câncer no pulmão. Vasconcelos, de 71 anos, faria em abril uma série de apresentações na Ásia.

*Reportagem publicada originalmente na edição 891 de CartaCapital, com o título "Jungle Man"