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Jogo de vale-tudo

por Orlando Margarido — publicado 18/08/2016 11h39
Em A Conexão Francesa, o combate real às drogas alimenta obsessões pessoais
Jerome Mace
Jean-Dujardin

Dujardin interpreta o magistrado recém-promovido e decidido a botar ordem na casa

A atual crônica policial caseira pode bem servir de comparação ao filme A Conexão Francesa. Também em trama real, temos combate a foras da lei e um procurador obsessivo em apanhá-los a todo custo, com abuso de poder e atitudes pouco ortodoxas. A diferença é que o universo no empolgante filme de Cédric Jimenez é o cartel de drogas baseado na Marselha dos anos 70, dito La French, e seus tentáculos pelo mundo, nos Estados Unidos inclusive. A visão americana do episódio rendeu o clássico no gênero Operação França (1971), de William Friedkin.

Vem daí a inspiração assumida, em especial no duelo de fortes em cena e nas atuações de Jean Dujardin (foto) e Gilles Lellouche. Este comanda o tráfico, e seu sobrenome napolitano Zampa, ou Pata, parece definidor. Dujardin é o magistrado recém-promovido e decidido a botar ordem na casa. Antes, testemunhou a perda de vidas jovens por causa da heroína. Age por ideal e acredita ter propósito superior. Nesse sentido, as personalidades e a condução dos casos igualmente convergem, ainda que pareça mais aceitável agir contra um mal social. Embora possam ser matéria de ponto de vista, como a ética que impõe seus limites, os conceitos tornam-se abstração quando o confronto envolve o orgulho pessoal.

A Conexão Francesa. Cédric Jimenez

 

Progresso e desordem 

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A troca da força braçal na lavoura por colheitadeiras e o consequente fluxo migratório às grandes cidades (Foto: Ivo Lopes Araújo)

Brasil S/A talvez não fosse tão modelar a momento surreal se estreasse há dois anos, depois de surpreender no Festival de Brasília como objeto raro. Porque toca ao absurdo o registro do diretor Marcelo Pedroso para tratar de mazelas do progresso. Não apenas no plano das ideias, mas de contingências da vida moderna, urbana ou rural, o que confere dimensão de ensaio visual crítico.

Brasil S/A. Marcelo Pedroso

Para tanto, o filme abdica de trama e diálogo em benefício de imagens insólitas. São situações como a troca da força braçal na lavoura por colheitadeiras e o consequente fluxo migratório às grandes cidades. Nessas, a verticalização segue e deságua mais carros nas ruas. Caminhões-cegonha embarcam automóveis com passageiros dentro para viagem tranquila.

Evidente o cotejo com São Paulo S/A, de Luis Sérgio Person, que já em 1965 preconizava crise social e existencial do protagonista, em razão da industrialização crescente. Marcelo Pedroso fala a sério, sem deixar o humor e a ironia, a exemplo de cena antológica de um balé de escavadeiras dirigido por mulher de biquíni.

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