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Jackson do Pandeiro: ele sacudiu os alicerces da MPB

por Tárik de Souza — publicado 22/07/2016 11h30, última modificação 23/07/2016 08h08
O músico enfileirou sucessos com um fraseado picotado
Estadão Contéudo
Jackson do Pandeiro

O paraibano José Gomes Filho herdou da mãe, a cantora de cocos Flora Mourão, a perícia vocal do gênero

Em 1953, ainda fulgurava no Sudeste o reinado do baião, do pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989), quando um novo astro irrompeu no mesmo firmamento. O paraibano José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro (1919-1982), herdou da mãe, a cantora de cocos Flora Mourão, a perícia vocal do gênero, canavieiro e praieiro, aproximado ao samba. Logo, no fraseado picotado de pandeirista, ele enfileirou sucessos como Sebastiana, A Mulher do Aníbal, Forró em Limoeiro, Um a Um, 17 na Corrente, O Canto da Ema

Após os anos 60, coletivos urbanos como a bossa nova e a Jovem Guarda confinaram os regionalistas. Mas, a partir da antropofágica revisita dos tropicalistas e a aparição, nos 70, de uma nova leva de nordestinos, como Alceu Valença (com quem Jackson se apresentou num Festival da Canção), os primos Elba e Zé Ramalho, suas músicas voltaram a ser gravadas. E sucederam-se homenagens, de João Bosco (Rockson do Pandeiro), Lenine (Jacksoul brasileiro), Guinga e Aldir Blanc (Influência do Jackson).

Boa parte do período obscuro de sua carreira, juntamente com a face luminosa (mais êxitos inescapáveis, como Cantiga da Perua, Como Tem Zé na Paraíba, Moxotó, Na Base da Chinela, Forró do Zé Lagoa, Cabo Tenório, Maria do Angá), ressurge na alentada caixa O Rei do Ritmo, reunindo 15 álbuns com 235 faixas, de 1953 a 1981.

O Rei do Ritmo - Jackson do Pandeiro. Universal Music

O projeto custou dez anos de garimpagem de acervos ao produtor e historiador Rodrigo Faour. Os discos desfalcados por problemas de liberação de direitos foram agrupados em antologias.

Nada capaz de impedir uma bela mirada na obra desse ex-ajudante de padeiro, que passou fome na infância e projetou-se a partir da dupla radiofônica Café com Leite, ao lado de um de seus principais fornecedores, Rosil Cavalcanti, autor do divisor de águas Coco do Norte (Nunca Foi Baião), em relação ao rival Gonzaga, de quem manteve distância.

Outra dupla relevante formou com Almira Castilho (coautora da pré-tropicalista Chiclete com Banana), além do duo vocal, em gaiatos números bailarinos. Também alimentado por mais um ás do coco, Edgar Ferreira, Jackson colocou nas paradas até uma versão musicada da carta testamento de Getúlio Vargas (Ele Disse). Da marchinha (Vou Ter um Troço) ao Frevo do Bi e o Samba do Ziriguidum esse artífice percussivo sacudiu os alicerces da MPB. 

*Publicado originalmente na edição 910 de CartaCapital, com o título "Ele sacudiu os alicerces da MPB"

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