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Como nos melhores tangos

por Orlando Margarido — publicado 13/10/2016 05h03
Arte, dor, paixão e ódio na intrincada dança da vida
Tango

Interiores de espaços históricos mesclam-se a visões de Buenos Aires para mostrar coreografias reinterpretadas por jovens talentos

A trajetória de María Nieves e Juan Carlos Copes seria material de encomenda para qualquer iniciativa de viés melodramático em que o tango se fizesse presente. Exceto que a dupla argentina de dançarinos, em meio século de parceria, personificou como poucos o próprio drama na expressão artística. A ponto de passar da atividade profissional ao convívio amoroso. É deste envolvimento com conflitos deletérios de que se vale em grande parte o documentário O Último Tango, de German Kral, com produção de Wim Wenders, estreia da quarta 12.

A mão do realizador alemão se nota na elaborada mise-en-scène semelhante a Pina. Interiores de espaços históricos mesclam-se a visões de Buenos Aires para mostrar coreografias reinterpretadas por jovens talentos.

A dupla dá corpo aos dois artistas que se conheceram adolescentes e hoje são octogenários. É uma solitária María quem lidera as boas e penosas lembranças ao dar conta da extrema afinidade com Copes. Mas também das traições deste e da união à parceira mais nova que lhe deu um filho, motivo do rompimento do casamento e mais tarde do fim da dupla em despedida no Japão.

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María Nieves, lembranças reencenadas da época em que partilhava a vida e o palco com Juan Copes

Muitas são as cenas emotivas. Como a que relembra a fascinação de ambos por Cantando na Chuva, sintomática a outro casal lendário afirmado no caso apenas na tela. Nos melhores tempos de palco, a paixão excedia a intimidade para irromper na arte, como se vê em material de arquivo analisado e debatido pelo grupo envolvido com a realização do filme.

Busca-se entender, em especial, como tamanho envolvimento transformou-se em ódio e intransigência. A história do par revela todo um painel do tango dançado. Nesse aspecto, desponta referência de vida completa em comum, nas ocasiões em que Federico Fellini e sua Giulietta pontuaram um momento do cinema italiano, desta vez com final feliz.  

 O Último Tango - German Kral