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'Campo Grande' ecoa episódios reais de abandono de filhos

por Orlando Margarido — publicado 03/06/2016 15h24
Além do longa de Sandra Kogut, semana traz ainda título do lituano Sharunas Bartas e o irônico Tudo sobre Vincent
Em reforma

Regina (Carla Ribas) e Lia (Julia Bernat), confronto

Há um Rio de Janeiro caótico e ruidoso em Campo Grande, de Sandra Kogut, que dialoga diretamente com a vida dos personagens. O cenário turbulento justifica-se pelas obras urbanas para o período da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

No caso do enredo, o drama mostra-se social e existencial. A dona de casa Regina (Carla Ribas) está em processo de separação e dissolução do apartamento na zona sul. Ao desgaste na convivência com a filha adolescente (Julia Bernat) junta-se o inesperado de duas crianças deixadas à porta. Num bilhete o apelo de acolhê-las e o aviso  de uma provável volta de misteriosa mãe.

O contexto ecoa os episódios reais de abandono de filhos. Mas o interesse da diretora não é o factual. O entrelaçamento de destinos diversos, do subúrbio com o bairro nobre e das crises que a todos envolvem, suscita questões e descobertas de caráter íntimo.

Campo Grande. Sandra Kogut

Daí a preocupação e lida elaborada de Kogut com os detalhes, representativos das pequenas experiências ante o entorno conturbado. De sua habilidade em contemplar a infância ela havia dado prova em Mutum e agora a renova com os irmãos em cena, Rayane do Amaral e Ygor Manoel.  

Da natureza humana

Da natureza humana

Paz para Nós em Nossos Sonhos. Sharunas Bartas

O cinema do lituano Sharunas Bartas é minimalista, contemplativo, voltado a questões existenciais e filosóficas. Seus recursos são da ordem das sensações. Os diálogos econômicos, por vezes banais, ganham relevância com o intuito de problematizar, não esclarecer. 

Paz Para Nós em Nossos Sonhos traz passagem exemplar, na qual o pai (interpretado pelo diretor) em conversa com a filha sobre medos diz a ela que as palavras não são o essencial, mas ajudam a nos expressar.

Essa relação constitui dois vértices do triângulo principal, que inclui ainda uma jovem violinista em crise, companheira do protagonista viúvo. Na casa de campo da família se darão as meditações e acertos, painel dividido com o rude clã vizinho, desestruturado e incômodo ao garoto que vive sem rumo. 

A natureza cumpre função decisiva na representação desse estado de ânimo, em análise de certa burguesia surgida pós-União Soviética. Em elaboração autoral, não se negam recorrências a diretores como Andrei Tarkovsky e Bela Tarr. 

Sem distinção

Tudo Sobre Vincent - 3.jpg

Tudo Sobre Vincent. Thomas Salvador

Irônico o título Tudo Sobre Vincent. Pouco saberemos do protagonista deste incomum filme francês além de particularidade física especial. Em contato com a água, Vincent adquire superpoderes. Em geral, é num lago ou similar que ele os pratica, ao nadar solitário e veloz, certo de não ser descoberto.

No mais, na atuação do próprio diretor Thomas Salvador (foto) em sua estreia no longa-metragem, é um tipo comum, tímido, que sobrevive de bicos para permanecer próximo da sua fonte de energia.

A distinção ao gênero convencional dos super-heróis não se dá apenas pela ausência de justificativa à habilidade do rapaz. Vincent mantém-se distante de qualquer exposição ou dever de salvar algo ou alguém. Se tanto, interferirá numa briga de trabalho que lhe custará o anonimato.

Mas a esta altura, há razão das mais agradáveis pela qual lutar, a paixão correspondida da jovem Lucie (Vimala Pons). Ela simboliza a ideia maior do filme, de aceitar as diferenças num mundo cada vez mais polarizado.