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A verve rara

por Rosane Pavam publicado 28/07/2016 09h16, última modificação 28/07/2016 09h16
Sábato Magaldi exerceu a crítica teatral entre a ousadia e o rigor
Olga Vlahou
Magaldi

Um crítico afeiçoado à palavra, para quem era preciso investigar o teatro desde os antigos

Sábato Magaldi existiu pela palavra. Ela orientou sua crítica teatral, a atividade de professor, o jornalismo. Publicada nos jornais, exercida nos livros, estendeu-se igualmente por 50 cadernos, cujo conhecimento será público 30 anos após sua morte, ocorrida dia 14 em decorrência de problemas pulmonares. Nas brochuras de capa colorida, Magaldi anotava com caneta esferográfica as impressões de todos os espetáculos teatrais a que assistira por cinco décadas, até que desistisse da crítica aos jornais, em 1988, e se dedicasse à academia. Antes de fazer suas análises, recorria ao que anotava. E não publicava todo o conteúdo de suas anotações, cerca de 20 mil páginas pautadas, porque uma honestidade o movia. 

Nos cadernos, argumentava o crítico mineiro, havia tão somente a “memória emocional” dos espetáculos. Se um ator prejudicasse a montagem com sua atuação, Magaldi teria, anos depois, como detectar o motivo, não raro de ordem sentimental.

Era amigo dos intérpretes, mas não os poupava ao analisar um espetáculo. Se não gostava do que via, relatava seu desprazer, primeiro à mão, depois à máquina de escrever, mesmo que seu desagrado lhe parecesse intimamente difícil de ser exposto. Conhecedor da escrita dos dramaturgos, inferia sobre ela, arriscava com tino, sem jamais expor as hipóteses que julgasse exteriores ao fazer teatral.

Certa vez, discordou da visão de Nelson Rodrigues sobre um de seus personagens, a Sônia de Valsa nº 6. Para o dramaturgo, ela refletia sobre a infância depois de morta. O crítico, porém, assegurara-se de que a jovem, como a Alaíde de Vestido de Noiva, existia em uma delicada fronteira entre a morte e a vida. O dramaturgo adorou o que leu. Mais ainda, que alguém destacasse o Sófocles dentro dele, sua trágica observação sobre a morte patriarcal. Nelson Rodrigues tornou-se amigo de Magaldi. Com o dramaturgo ria abertamente, um sorriso que parecia incólume desde a infância.

Via seu ofício como um exercício de sobriedade, conforme descreveu no volume Teatro em Foco. Ali expôs o que o orientava. Um analista do fazer teatral precisaria, antes de tudo, ler o teatro escrito desde os antigos. Deveria assistir a todos os espetáculos. Ser dotado da boa, para não dizer excelente, escrita. E a honestidade permearia tudo, como um princípio. Sábato Magaldi morreu aos 89 anos, raro, no limite do impossível.