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Truman Capote: literatura à sombra

por Rosane Pavam publicado 15/04/2016 05h10
Nos escritos iniciais do pioneiro do jornalismo literário, a acolhida aos marginalizados
Rue des Archives/Latinstock
Capote

Um branco a observar os negros em sua condição de apartados

Talvez ele tenha se jogado com exagero aos pés da vida. Mas acreditava-se verdadeiro como escritor. “Arte e verdade não são necessariamente compatíveis”, disse certa vez Truman Capote (1924-1984), um autor que excedeu seu tempo, indiferente a que sua literatura se misturasse ao jornalismo. Igualmente ultrapassou seu lugar, o profundo e racista Sul norte-americano, ao observar nele uma estranheza, uma perturbação, um limite.

O menino de New Orleans não possuía modelos de escrita em sua família. Mal tinha uma família. A mãe, vítima de alcoolismo, separou-se do pai, que desaparecera de sua vida. Capote adotou o sobrenome do padrasto cubano e desde os 8 anos entendeu que escrever era sua sina. Enquanto os amigos iam brincar depois da aula, ele, aos 11, metia-se em até três horas de escrita e reescrita. Tinha a iluminação do cinema. Poucas palavras descreviam a cena, e cada parágrafo sugeria um mistério.

O Trânsito para o Oeste, ficção presente em Primeiros Contos de Truman Capote, que reúne escritos inéditos encontrados na Biblioteca Pública de Nova York em 2013, assim começa: “Quatro cadeiras e uma mesa. Na mesa, papel, nas cadeiras, homens. Janelas dando para a rua. Na rua, gente. Batendo nas janelas, chuva.

Primeiros contos de Truman Capote. José Olympio, 160  págs., R$ 32,90

Talvez fosse uma abstração, apenas uma imagem pintada, só que havia pessoas, inocentes, despreocupadas, que se movimentavam lá embaixo e a chuva que molhava a janela”. Dos 17 aos 20 anos, como demonstra este livro, não brincava com o talento. A palavra certeira era sua arma. Dorothy Doyle Gavan, que o superou em um concurso literário de escola, lembra-se de vê-lo inconformado: “Veio direto até mim na sala de aula e disse um palavrão”.

Nesses contos, ainda está por fazer-se como escritor. Mas, dentro deles, joias opalescentes indicam sua empatia com os subjugados, tão bem descritos futuramente em clássicos como o documental A Sangue Frio, a novela Bonequinha de Luxo ou os contos de A Tree of Night and Other Stories. Homossexual, projetava-se na marginalidade dos descendentes de escravos. Era um homem branco a raciocinar sobre os negros a certa distância, mas, ainda assim, determinado a observá-los em sua condição de apartados.