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Cultura

CD

A hecatombe suave da paulistana Marina Melo no disco "Soft apocalipse"

por Tárik de Souza — publicado 03/06/2016 04h34
O título paradoxal sinaliza a postura iconoclasta da cantautora, mesmo quando aborda temas exauridos
Divulgação
Marina-Melo

Eu não posso te avisar/ fazer você parar/seria interromper o big bang

Aos 25 anos, após estudar canto desde os 17, a paulistana Marina Melo estreia em disco no qual conjuga a emissão certeira, cortante, com a língua afiada de suas letras.

O título paradoxal – é possível uma hecatombe suave? – sinaliza a postura iconoclasta da cantautora, mesmo quando aborda temas exauridos, como a Saudade, da faixa de abertura.

Absurda, vietnamita, suingada, zoada de saudade/ parafina, palafita, verdade: saudade em álcool gel, enumera, entre diatribes como ando mijando na saudade, escorraçando a saudade a pontapé, pontuadas por bateria, numa escala da delicadeza à exacerbação.

Mais estranhamento escorre da Valsa da Barata, a propósito da cena insólita do inseto pousado no cabelo de uma cantora em plena performance. Eu não posso te avisar/ fazer você parar/seria interromper o big bang/ calar a boca da cachoeira/ paralisar a ventania, metaforiza a letra.   

O compositor maranhense Zeca Baleiro participa de Adultos, com resposta de coro, que discute signos sociais (adulto não sorri pra adulto/ de graça no meio da rua), enquanto o furioso rock Laura, escrito na semana da propagação do hashtag #meuprimeiroassédio, fustiga, sem eufemismos, a violência contra a mulher: quando você rasga uma/você rasga todas nós.

Soft apocalipse. Marina Melo, Alcachofra Records

Pelo viés do humor, o baião Dever Cívico (e você tem que comemorar/ tá chovendo na hora do rush) esgarça a crise hídrica paulista dos últimos dois anos. Produzido pelo multinstrumentista Gabriel Serapicos, o CD esculpe um perfil de intérprete autoral com diversificado domínio estético.

Do blues desafiador (Dinheiro) aos ditados de ponta-cabeça em Desditos e a desapropriação em Ra-paz, do mote de A Paz, de João Donato e Gilberto Gil, Marina atesta sua vocação programática de enxergar o mundo pelo avesso. 

 

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