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Gene Wilder e a explosão do riso

por Rosane Pavam publicado 02/09/2016 12h11, última modificação 03/09/2016 01h08
O comediante fez as lições humorísticas do cinema mudo
The Kobal Collection/AFP
Gene Wilder

A arrancada neurótica, em dezenas de clássicos: “Não faça a coisa parecer engraçada. Torne-a real “

Seu nome verdadeiro, Jerome Silberman, não lhe agradava. Judeu demais para encarar um Shakespeare. E ele era um ator, não um palhaço, como fazia questão de dizer, apaixonado pelas atuações de Lee J. Cobb.

“Não tente fazer a coisa parecer engraçada”, aconselhava aos novos atores embevecidos por suas performances cômicas. “Torne-a real.” O pseudônimo Gene Wilder, tirou de duas situações literárias. Gene vinha de Eugene Gant, protagonista de Thomas Wolfe em Look Homeward, Angel.

E Wilder evocava o sobrenome de Thornton, o dramaturgo. Gene Wilder engrandeceu a comédia em filmes como O Jovem Frankenstein, Banzé no Oeste, A Fantástica Fábrica de Chocolate e A Mulher de Vermelho, entre outras razões, porque soube inventar-se.

O que havia em um nome? Gene soava como Jeanne, como fora batizada sua mãe, uma mulher pobre, com sensibilidade artística, muito irritável às vezes. Quando Jeanne sofreu um infarto, o médico voltou-se para ele, então com 6 anos: “Se você a contrariar, ela morre”.

Aterrorizado, o menino sentiu que precisava agir contra isso. Fazê-la rir. Conseguiu, quase sempre. Ao atuar, inspirava-se na ingenuidade de seu pai. E algo esperou, na vida adulta, que os espectadores umedecessem as calças, como fazia a mãe diante de suas performances infantis.

O falso sobrenome Wilder, a indicar, em inglês, um comparativo para selvagem, encaixou-se ainda melhor neste ator, diretor e pintor. Ele dominava a arrancada neurótica nas interpretações cinematográficas inauguradas em Bonnie and Clyde, de 1967, no qual interpretava um nobre psicótico, a conversar com o cadáver de seu falcão.

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Morto dia 28, aos 83 anos, vítima de Alzheimer, Wilder amava Chaplin, e por vezes pareceu prosseguir sua tradição muda. Luzes da Cidade o impressionava, um filme “engraçado, depois triste, depois os dois ao mesmo tempo”.

Mel Brooks, que o dirigiu em clássicos como Banzé no Oeste, uma paródia western contra o racismo a anos-luz do Django de Quentin Tarantino, acreditava não haver ninguém capaz, como ele, de certas explosões cômicas. Não dirigia Wilder, apenas o continha, enquanto o ator mais parecia reagir que atuar.

Brooks quis livrar-se dele para o papel de Jim, the Waco Kid, mas Wilder insistiu. No filme, o xerife negro implora a Kid: “Se você continuar a beber desse jeito, vai morrer”. Ao que ele responde rápido, com uma pergunta: “Quando?”

*Reportagem publicada originalmente na edição 917 de CartaCapital, com o título "A explosão do riso". Assine CartaCapital.