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David Bowie e a exasperação da despedida

por Tárik de Souza — publicado 14/03/2016 02h05, última modificação 14/03/2016 16h44
O último albúm de Bowie revela uma sombria convulsão musical conduzida por vozes bruxuleantes
Bowie

Mesmo com futuros projetos escalonados, Bowie era um popstar com os pés infincados na terra

Inspirado no álbum de rap de Kendrick Lamar To Pimp a Butterfly, contaminado pelo jazz assimétrico de Kamasi Washington e Thundercat, o peregrino da metamorfose David Bowie, morto em janeiro, sublimou a guitarra roqueira na carta testamento musicada. Por indicação da pianista e líder da Maria Schneider Orchestra, convocou um obscuro grupo de jazz vanguardista, Donny McCaslin Quartet, para escoltá-lo em Blackstar.

A rigor, o disco não tem título e a capa ostenta apenas o desenho de uma estrela negra, símbolo reprisado na ficha técnica em referência à faixa principal. Trata-se de uma sombria convulsão musical de quase dez minutos, conduzida por vozes bruxuleantes (inclusive a do solista) sob alternância de atmosferas. Mesmo com futuros projetos escalonados, Bowie, que celebrizou personagens estratosféricos em álbuns como Space Oddity, The Rise and Fall of Ziggy Stardust e Alladin Sane, era um popstar com os pés fincados na terra. 

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Blackstar. David Bowie. Sony Music 

Tanto que, em 1997, amealhou 55 milhões de dólares no mercado em bônus sobre direitos autorais futuros nas inovadoras Bowie Bonds. E confidenciou a gravidade da doença apenas ao assíduo produtor de seus discos Tony Visconti e a Ivo Van Howe, diretor do musical Lazarus, outra faixa, retratada num clipe lancinante. Apontada como possível plágio de Cais, Sue (or in a session of crime) ecoa brevemente a litania de Milton Nascimento. Traz camadas reiterativas, engolfadas pela voz dramática do solista, assolada por reviradas de bateria.

Nos escassos 41 minutos deste 28º álbum, incluindo os dedicados ao descompassado Girl Love Me, Bowie irradia a exasperação da despedida. Tudo deu errado, mas foi em frente/ o nervo amargo finda, nunca estiola/ estou caindo descerra, sob agulhadas do sax de Donny McCaslin em Dollar Days.

*Publicado originalmente na edição 891 de CartaCapital, com o título "A exasperação da despedida"

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