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A câmera como espelho

por Orlando Margarido — publicado 06/10/2016 03h47
Bienal de Cinema reflete a causa dos índios por eles mesmos
Reprodução
Indígenas

A inesperada poética em Mirandela Kiriri, de 2016

Há quase três décadas, Ailton Krenak enfrentou a indiferença do Congresso Nacional à causa indígena pintando seu rosto de preto em discurso na tribuna. “Aquele jenipapo ficou colado no meu rosto por muito tempo”, avalia ele, de modo simbólico. “São gestos que se tornam maiores que a gente e precisei me afastar daquela máscara mantida para sempre na cabeça das pessoas. Foi como um exorcismo.”

Desde a Assembleia Constituinte, no entanto, o líder indígena de etnia que lhe dá o sobrenome nunca deixou de atuar pelos seus. A Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena por ele organizada é consequência direta da luta. Em sua segunda edição, entre 7 e 12 de outubro, o evento apresenta 57 filmes inéditos realizados por índios de diversas origens nas respectivas aldeias. São 22 títulos a mais em relação à primeira iniciativa. 

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Poética de O Dilúvio Maxakali

O esforço de reunir imagens de temática variada, a partir de oficinas de cinema, chega em momento significativo. O recente 49º Festival de Cinema de Brasília apresentou quatro produções envolvidas em grande debate, entre elas Martírio, de Vincent Carelli, veterano da câmera voltada para os índios. Neste segundo documentário de uma trilogia iniciada por Corumbiara, o diretor reconstrói o painel trágico do povo Guarani-Kaiowá desde movimentos históricos como a Guerra do Paraguai até o recente governo de Dilma Rousseff. Está no filme o contexto político nas ações de Rondon, Getúlio Vargas e, sintomático, o protesto de Krenak. 

 Aldeia SP - Bienal de Cinema Indígena - Centro Cultural São Paulo (CCSP) e Centros Educacionais Unificados (CEUs). De 7 a 12 de outubro. Programação em https://www.facebook.com/aldeiasp/

Carelli, pioneiro no audiovisual com seu projeto Vídeo nas Aldeias, participa de debate no dia 7, às 16 horas, no Centro Cultural São Paulo, um dos endereços da mostra juntamente com as salas do circuito SP Cine. Além de Krenak estão o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira e o ambientalista João Augusto Fortes. Em boa parte, lembra o idealizador, a produção vem das etnias guarani, por estas estarem no Sudeste e com mais acesso aos meios.

É o caso do curta-metragem Konãgxeka – O Dilúvio Maxakali, desse povo estabelecido em Minas Gerais. Mas também de grupos de outras regiões, a exemplo dos Kiriri, na Bahia, no média Mirandela Kiriri. “Apesar de território e demarcação serem recorrentes, os temas incluem mitos e valores que nos guiam, com uma poética talvez inesperada a certo público”, diz Krenak. “A câmera para os índios é, hoje, um reverso daquele espelhinho trazido pelos colonizadores. Desde lá temos uma mística com a imagem e a autoimagem.”