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Cultura

Crônica

Beco escuro

por Menalton Braff publicado 03/09/2015 11h35
Se o grupo protetor de animais como cobaias crescer muito, temo que ainda acabemos enjaulados para que cientistas de quatro patas façam experiências conosco
Marcos Pertinhes/ Prefeitura de Bertioga
Vacina

Seres invisíveis a olho nu também não deveriam ser mortos porque não valem menos do que os outros

Afirma o Adamastor, reflexivo, que a civilização de qualquer forma acabaria conduzindo a humanidade a esse beco escuro, sem saída e perigoso. A solidão cósmica acabaria, mais cedo ou mais tarde, transtornando o ser humano que, à guisa de consolo, anula-se com um desprezo também sideral, elegendo outros seres para o digno posto de protagonistas do mistério da existência.

Agora, ele continua, começam a surgir grupos cada vez maiores defendendo a ideia, de aparência ingênua, de que é suma maldade o homem servir-se de animais, seus irmãos, como cobaias. Matam-se coelhos, ratos e macacos, para salvar a vida deste reles ser, deste ser desprezível que é o homem. Experiências em laboratórios com animais deveriam ser proibidas, pois eles são nossos irmãos. E o fratricídio é crime hediondo.

Sem entrar na questão religiosa, porque nesse terreno o pau quebra pra valer, poderia dizer que Deus fez o homem à sua imagem e estatura. O homem. Nem macaco, ou coelho tampouco rato. Mas não vou entrar no mérito das religiões, em que teria de consultar o Adamastor, e o pensamento dele é muito confuso.

Para sermos coerentes, diz meu amigo, imagino que comer frango, churrasco de carne bovina, comer ovo de galinha ou uma bela costeleta de porco, tudo isso também pode ser considerado como verdadeira agressão à parentalha. Os açougues deverão ser fechados, matadouros proibidos e o confino de animais, de todas as espécies, extirpado da face da Terra.

Difícil entender, ele afirma, que matar um porco, um boi, um coelho seja menos cruel do que servir-se de algum animal como cobaia de experiências científicas. Objetei que alguns animais são de nossa estimação, cujo nome da moda colonizada é pet. Então a coisa complicou, pois meu amigo, que também filosofa nas horas de folga, deduziu que a defesa dos animais de estimação é um modo disfarçado de nos defendermos a nós mesmos. Um egoísmo disfarçado.

Radicalmente coerente, o Adamastor anda sugerindo que os inseticidas e os antibióticos também caiam em desgraça, porque, enfim, atentam contra seres vivos. Insetos e vírus devem entrar na lista dos protegidos, não é verdade? Por que apenas ratos e coelhos deveriam ter o privilégio de nossa proteção? Somos todos irmãos, todos filhos do mesmo Deus. E não me venham dizer que os seres invisíveis a olho nu são menos vivos do que os outros. Porque se a questão é tamanho, vocês já imaginaram como se mata um boi? Eu já vi.  

Se o grupo protetor das cobaias crescer muito, temo que ainda acabemos enjaulados para que cientistas de quatro patas façam experiências conosco, como no conto do Jaguar, em que os jacarés substituíram os seres humanos de uma cidade.

Recado final: qualquer contestação às ideias aqui exaradas devem ser dirigidas ao Adamastor, único responsável  pela crônica.  

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