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Entrevista / Vera Egito

'Batalha da Maria Antônia não é um passado que acabou'

por Bruna Carvalho — publicado 14/12/2013 12h42, última modificação 14/12/2013 12h53
Cineasta prepara filme com "versão humana" sobre o conflito entre alunos da USP e do Mackenzie, em 1968. Por Bruna Carvalho
Arquivo Público do Estado de SP
Rua Maria Antônia

Força Pública toma a Universidade Mackenzie durante conflito com estudantes da USP na rua Maria Antônia

Em outubro de 1968, a rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, foi palco de um confronto físico, ideológico e, antes de tudo, geográfico. De um lado da via, que vai da Consolação até a rua Higienópolis, os estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, ligados à União Nacional dos Estudantes. Do outro, alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Em meio ao regime civil-militar, a rivalidade entre as duas escolas eclodiu em um conflito campal com o pedágio dos alunos da USP para custear o Congresso da UNE.

Essa icônica batalha, que acabou com um estudante secundarista morto, é  o pano de fundo do novo projeto da produtora Paranoid, de Heitor Dhalia, Tatiana Quintella e Egisto Betti. Rua Maria Antônia – A Incrível Batalha dos Estudantes, dirigido pela cineasta Vera Egito, contará a história de Leon, um nada engajado calouro da USP que se vê impelido a romper com sua inocência e tomar partido no confronto durante as 24 horas em que se passa o enredo. Antes de ser somente uma sequência dos fatos históricos que culminaram na batalha, Egito se concentrou em elaborar uma história sobre a inquietude e os conflitos internos dos jovens envolvidos com o evento.

"Uma das coisas que eu vejo nos filmes sobre a ditadura no Brasil é um retrato sempre muito heroico dessas pessoas, como se elas sempre tivessem tido certeza de tudo. E eu acho que seres humanos não são assim", afirmou, em entrevista à CartaCapital.

Para a diretora paulistana, a atualidade da narrativa está garantida não somente por se tratar de questões humanas atemporais, mas também porque o Brasil caminha na mesma trajetória em que se encontrava em 1968, lutando pela liberdade e igualdade social. "Nós, como sociedade, ainda estamos entendendo o que é democracia, o que são os nossos direitos. Não estou falando de um passado que acabou."

Diretora dos curtas "Espalhadas pelo Ar" e "Elo", exibidos no Festival de Cannes de 2009, e de uma série de videoclipes e de campanhas publicitárias, Egito construiu seu protagonista a partir não somente dos homens que rodeiam sua vida, como Felipe, seu irmão caçula, mas também de si mesma. Ao falar da responsabilidade de rodar o seu primeiro longa-metragem, ela se compara à sua própria criação: "É igual ao Leon. Uma hora você tem que amadurecer, se comprometer com as pessoas e todas as questões. Assumir o compromisso. Escrever o roteiro, mandar para atores que você admira. Tem um processo de gente grande. E crescer é difícil, mas é bom."

Com contrato assinado com a distribuidora Europa Filmes e filmagens previstas para o segundo semestre de 2014, o longa já tem confirmados no elenco Débora Bloch, José de Abreu e Caco Ciocler, que interpretarão professores da USP envolvidos na batalha.

Veja a entrevista de Vera Egito a CartaCapital:

CartaCapital: A Batalha da Maria Antônia é um episódio da ditadura bem localizado em São Paulo. Por que ele merece ser contado?

Vera Egito: Na dramaturgia, a construção de uma história depende de alguns conceitos e um deles é o conflito em várias instâncias. Há o conflito macro, que está no ambiente que os personagens vivem, na época, no tempo. Existe o conflito dos personagens, que estão em conflito uns com os outros. E existe o conflito interno de cada personagem dentro de si. Esse episódio tem um conflito macro, que era a ditadura. E o que é simbólico na batalha é que o conflito, além de ideológico, é geográfico. Você tem uma escola de frente para a outra. O conflito está representado no espaço físico de uma forma muito nítida. Isso de os estudantes da Filosofia e os estudantes do CCC no Mackenzie serem tão opostos e estarem convivendo no mesmo espaço físico chama muito minha atenção.

CC: O filme vai ser uma ficção baseada em fatos reais. Quão presa você ficou aos eventos e fatos históricos para desenvolver essa narrativa?

VE: Eu gosto de dizer que o filme é baseado em um evento real, que é a batalha da Rua Maria Antônia em outubro de 68, e se passa em 24 horas. O roteiro tem alguns fatos, como o pedágio que os estudantes faziam para arrecadar dinheiro para o Congresso da UNE. Mas, por exemplo, alguns pequenos conflitos que aconteceram durante o ano de 68 e que culminaram na batalha, no filme, eles acontecem naquele dia. Tomei várias liberdades em favor da narrativa. Por exemplo, tem o estudante morto, mas ele não se chama José Guimarães. Não existe nenhum nome real, mas tem inspirações. Alguém que conheça a história até poderia se identificar, mas talvez seja, talvez não seja, porque eu não tive essa preocupação. Meu foco não é esse.

CC: Há uma atualidade na batalha da Maria Antônia?

VE: Há uma perspectiva atual que é essa inquietação no coração jovem. Essa sensação de que a vida está acontecendo e eu não faço parte. Para mim, adolescência é isso. Então, é o mesmo sentimento em qualquer época. Isso é sempre atual. E do ponto de vista social, acho que o Brasil, por mais que se fale muito que é um lugar de pessoas apáticas, eu discordo. Acho que as pessoas são muito batalhadoras, trabalham muito, fazem muito, agem muito. As pessoas lutam por direitos básicos. E os problemas sociais naquela época eram piores. Aquela luta pela liberdade, em última instância, era uma luta pela igualdade social. Acho que o Brasil continua nisso. Claro, evoluímos em muita coisa. Vivemos uma democracia com liberdade de expressão, ainda não plena, mas a caminho disso. Mas acho que de 68 pra cá continuamos no mesmo trajeto. Caminhamos, mas não encerramos esse trajeto. Nós, como sociedade ainda estamos entendendo o que é democracia, o que são os nossos direitos. A gente tem uma democracia há muito pouco tempo. Não estou falando de um passado que acabou. Estou falando de algo que ainda acontece. Ainda está absolutamente vivo.

CC: Na noite do dia 13 de junho deste ano, a Maria Antônia foi palco de uma batalha entre a tropa de choque da Polícia Militar e os manifestantes. Esse paralelo está vivo?

VE: Essa explosão aconteceu depois que eu escrevi o roteiro. Mas só confirmou o que eu já achava. Isso tudo está vivo. Está vivo ainda na população. A geração de 68 ainda não morreu. E está muito vivo, inclusive, na memória física da cidade, os prédios estão lá, a rua está lá. Com o que aconteceu em junho há até uma coincidência de imagens. Vi uma foto da tropa de choque na Maria Antônia agora em 2013 que é igualzinha à foto de 1968. A batalha da Maria Antônia aconteceu em outubro, é pré AI-5. Ainda existia uma falsa impressão de que o mínimo das liberdades individuais eram respeitadas. Quando a força pública chega, ela se coloca de costas para o Mackenzie e de frente para a Filosofia. Quem estava ali entendeu que a tropa foi ali para proteger o Mackenzie e encerrar com aquela briga tomando um partido muito claro. Quando eu vi a cena dos PMs marchando pela Maria Antônia, lembrei disso na hora. Nos protestos de junho, tinham umas pessoas mais velhas com um cartaz: "Os jovens de 68 apoiam os jovens de 2013”. A ideia do filme é essa. Eu não sou um velho de 70 anos. Eu sou um jovem de 1968. E na juventude a gente se encontra ideologicamente.

CC: Você sempre quis fazer um filme político?

VE: O meu primeiro curta, “Espalhadas Pelo Ar”, meu TCC, que é sobre a relação entre uma menina e uma mulher vivendo uma crise amorosa cada uma em seu momento, tem zero política. Eu achei que fosse sofrer um bullying dentro da própria USP por fazer um roteiro tão "alienado". Quando o filme ficou pronto, em 2007, eu mandei para o festival de Brasília e foi super bem recebido. Aí eu entendi que, na verdade, eu tenho que me preocupar em fazer uma história em que as pessoas se envolvam. Se é político ou não, é secundário para o público. E a Maria Antônia é meio por aí. Me pareceu uma história interessante, que merece um retrato.

CC: Quais foram suas referências para fazer esse retrato?

VE: O “Milk”, do Gus Van Sant, eu assisti várias vezes, porque acho que tem uma perspicácia ali. Existe um tema político, uma militância, mas existe uma maneira muito inteligente de colocar isso. Então você se envolve com o Milk, com os desejos dele. A questão do movimento gay está ali, mas não está jogado na sua cara. Você não tem que engolir nenhum discurso político. “O Que É Isso Companheiro?” eu vi no cinema, era novinha, e achei o máximo. Tem alguns filmes brasileiros que não tem nada a ver com política, mas o filme da Laís (Bodanzky) “As Melhores Coisas do Mundo” tem uma maneira especial de como ela constrói aqueles jovens. Essa honestidade no tratamento com os personagens eu desejo muito. Essas referências estão na nossa cabeça. No geral, vou tentar fugir de uma coisa que seja muito didática. Acho que tem diálogos que não cabem na boca do ator. Quando o personagem explica: "Porque a POLOP... porque a Libelu". Ninguém explicava para o outro o que era a Libelu, porque todo mundo sabia o que era a Libelu. Eu vejo uns filmes históricos que só falta o cara virar para a câmera e me explicar. Não precisa me explicar, porque eu já sei, e mesmo que eu não saiba, eu leio um livro e descubro. Não é momento de você dar uma aula nesse sentido, factual, objetivo.

CC: O cinema nacional precisa falar de sua história de uma maneira mais agradável?

VE: Acho que falta um fair play. (Para fazer o roteiro do Maria Antônia), eu não fiquei presa, porque eu não fico presa. Meu compromisso é com a narrativa. É uma ficção. Tem um compromisso com o fato, um compromisso histórico, claro. Minha intenção não é mentir para ninguém. Sinto que muitos fatos da história brasileira foram contados na ficção de uma forma presa. E quando você fica presa, você fica duro. Vem muitas informações, e, as vezes, para a história desse personagem, não precisava. Não precisava ter a pausa. Existe um evento histórico, respeite essa época, respeite essas pessoas que viveram essa época. Mas se você fica muito preso, perde a beleza da ficção.

CC: Os seus dois curtas, “Elo” e “Espalhadas Pelo Ar”, têm personagens femininas fortes e há um traço autobiográfico nelas. Há um pouco de você em Leon, o protagonista? Por que dessa vez é um homem?

VE: O Leon é um menino que não está engajado ao movimento estudantil a princípio. Ele é calouro da Faculdade de Filosofia e é muito apaixonado por Lílian, uma militante radical de esquerda totalmente engajada, e eles são amigos de infância. O filme mostra o amadurecimento de um jovem e a perda da inocência. Aborda o momento em que o jovem tem que abandonar o posto de: “Ai, não sei o que está acontecendo. Eu não entendo”. Não. Você vai ter que trabalhar, vai ter que casar, ou se separar, tomar uma atitude. E o Leon está vivendo tudo isso em um momento crítico da sociedade, especialmente entre os estudantes. Ali, você realmente tinha que tomar uma atitude. Eu me identifico com o Leon por ele ser o adolescente que eu fui, que todos nós fomos um dia.  Esse medo da vida, medo de dar errado, medo de perder. Por outro lado, há um desejo gigante pela ação. Porque o adolescente quer agir, mas tem medo.

Não sei porque é um menino. Acho que, talvez, os homens vivam esse clamor pela ação de maneira mais intensa. Meu irmão mais novo, o Felipe, por exemplo, é um desenhista. Um menino tranquilo e calmo. Eu lembro de uma cena na escola, teve uma rodinha de briga de uns amigos dele e ele teve que entrar. E meu irmão nunca foi de briga, mas teve que entrar. E eu fiquei muito nervosa quando cheguei no pátio e vi ele tomando porrada e dando porrada. E ele estava chorando também. O homem às vezes é obrigado a agir, tem que saber brigar. E às vezes ele não quer isso. Eu acho que, talvez, um menino, contenha mais esse conflito entre a força e a delicadeza.

CC: Apesar de atores veteranos confirmados, a sua ideia é ter um elenco inexperiente, jovem?

VE: A ideia é essa. Uma das coisas que eu vejo nos filmes sobre ditadura feitos no Brasil é um retrato sempre muito heroico dessas pessoas, como se elas sempre tivessem tido certeza de tudo. E eu acho que seres humanos não são assim. Outra questão é a idade. São sempre atores por volta dos 30 anos, e quando você vai ler literatura a respeito dessa época, as pessoas que estavam na casa dos 20 eram os líderes. As pessoas tinham 15, 16, 17 anos. E a minha intenção é fazer um filme com essa cara. De gente muito nova, mas que fala sério, briga, tem atitude.

CC: Esse será seu primeiro longa-metragem. Tem um peso diferente?

VE: Esse primeiro (longa) representa uma volta para ficção. Eu finalizei o “Elo” em 2008. De lá pra cá, fiz publicidade, clipes, programas de TV, publicidade, escrevi roteiros com o Heitor. Então, eu fiz um caminho que eu gosto bastante, que me trouxe muita coisa boa, mas que não foi ficção. Mas o longa tem um peso. No curta, se permite mais erros. Com o longa, claro, você vai errar também, mas já está em circuito comercial, tem compromisso com uma distribuidora, com o mercado. O curta não, ele está em um ambiente mais experimental. Agora é coisa de gente grande. Mas é bom. É igual ao Leon. Uma hora você tem que amadurecer, se comprometer com todas as pessoas e as questões. Assumir o compromisso. Escrever o roteiro, mandar para atores que você admira. Tem um processo de gente grande. E crescer é difícil, mas é bom.