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Aurora melancólica

por Redação Carta Capital — publicado 16/07/2011 09h56, última modificação 18/07/2011 15h57
Novo disco de Chico Buarque traz letras tristes e mulheres malvadas. Veja também:O Samba Carioca de Wilson Batista. Foto: Daryan Dornelles
Sugestões Bravo! para ouvir

As dicas de música da semana trazem o novo disco de Chico Buarque, Chico, e O Samba Carioca de Wilson Batista, projeto de Rodrigo Alzuguir. Foto: Daryan Dornelles

Chico

Chico Buarque

Biscoito Fino

Já faz uns 13 anos que ouvir um disco novo de Chico Buarque é tarefa penosa. Desde As Cidades (1998), as poucas canções inéditas que ele apresenta são quase sempre tristes, dolorosamente tristes. O novo e conciso Chico (dez músicas em 31 minutos) não é diferente, e soa até mais profundo na melancolia, à medida que traz para a canção a atmosfera entre sufocante e absurda dos romances que passou a lançar em 1991.

Os jogos de espelhos entre identidades esburacadas aparecem, por exemplo, na segunda faixa, Rubato, em que três compositores digladiam-se, cada um roubando a estrofe do outro e transformando a musa da canção de Aurora em Amora em Teodora. O tema volta espelhado na penúltima faixa, Barafunda, num ardil cruel que esfumaça memórias: Era Aurora/ não, era Aurélia/ ou era Ariela/ não lembro agora. Salve este samba antes que o esquecimento/ baixe seu manto, seu manto cinzento. A conclusão vem soluçante e sabedora de ser uma gota em colossal oceano.

A tristeza é mote interdito de Sem Você 2, em que outro compositor dá continuidade a Sem Você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, lançada por Lenita Bruno e por Sylvia Telles em 1959, quando a bossa nova ainda se permitia chafurdar na fossa de termos como “desespero”, “solidão”, “sofrimento”. A versão de Chico é menos dramática, mas a sombra dos pais ausentes está toda lá.

Menos antigo que a bossa de Tom e Vinicius é o afro-samba de João Bosco, retomado na parceria e dueto Sinhá, cuja última estrofe (também a última do CD) diz muito sobre Chico Buarque. A letra engenhosa, sobre um escravo punido por admirar sinhá despida, flagra uma figura malvada de mulher, figura recorrente neste CD de um autor muito amado pelas mulheres.

Muito se repete, com certo gosto, que Chico fez A Banda em 1966 e nunca mais quis voltar a cantá-la. Mas Rubato evoca de longe A Banda, como há ecos de Construção e Cotidiano (1971) em Querido Diário. Rubato não tem a ingenuidade de A Banda, assim como o tom engajado das canções de 1971 foi, este sim, banido da obra de Chico há quase 20 anos. Mas Aurora, Amora, Teodora, Aurélia, Amélia estão, todas elas, escondidas, atocaiadas, ali dentro de Chico.  – POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Outra Sugestão de Bravo! para ouvir:

Garimpo, em tempo

O Samba Carioca de Wilson Batista

Vários. Biscoito Fino

Wilson batista, autor de clássicos como Oh, Seu Oscar, teve o primeiro samba gravado há 79 anos. Desde então, cantores de várias gerações registraram suas canções. Mas faltava um “garimpo” em sua obra à altura, que O Samba Carioca de Wilson Baptista, esmerado projeto de Rodrigo Alzaguir, cumpre bem. O álbum-tributo (duplo) traz nove composições inéditas, dois registros caseiros e um musical. São crônicas que retratam o Rio, o samba, a malandragem. E fazem um resumo da biografia do artista.

O disco um é a Reserva Especial, com uma seleção de músicas raras, inéditas ou não regravadas, com participação de nomes como Cristina Buarque e Elza Soares e destaque para a marcha-rancho inédita Nelson Cavaquinho, por Teresa Cristina.  Já segundo é o Espetáculo. Trata-se da trilha sonora de O Samba Carioca de Wilson Baptista, encenado e cantado por Rodrigo Alzuguir e Cláudia Ventura,  com passagens da vida de Wilson Batista, seus principais personagens, a polêmica com Noel e vários sucessos. Enfim um trabalho que ilumina uma biografia. – POR ANDRÉ CARVALHO