Você está aqui: Página Inicial / Cultura / As sugestões de Bravo! para o cinema

Cultura

Cinema

As sugestões de Bravo! para o cinema

por Redação Carta Capital — publicado 18/06/2011 11h37, última modificação 21/06/2011 18h40
Na seção de cultura desta semana, CartaCapital recomenda os filmes Estrada Real da Cachaça, Mamonas Para Sempre, Vênus Negra, além da 6ª Mostra Mundo Árabe de Cinema
As sugestões de Bravo! para o cinema

Na seção de cultura desta semana, CartaCapital recomenda os filmes Estrada Real da Cachaça, Mamonas Para Sempre, Vênus Negra, além da 6ª Mostra Mundo Árabe de Cinema

Confira abaixo as sugestões para o cinema da seção Bravo!  publicadas na edição desta semana de CartaCapital

Marvada excelência
Estrada real era o nome que designava qualquer via terrestre oficial no Brasil Colônia. Ela significava uma opção legal para a circulação de pessoas e mercadorias, já que abrir ou utilizar vias não autorizadas constituía crime de lesa-majestade. O Caminho Velho da Estrada Real, conhecido como Caminho do Ouro, que nasce em Paraty e, subindo as serras, chega ao interior de Minas Gerais, foi criado a partir de trilhas indígenas e em fins do século XVII, com a descoberta do metal, tornou-se a mais importante rota comercial terrestre brasileira. Estendia-se por 1,2 mil quilômetros, percorridos em cerca de 90 dias de viagem. Por ele, traziam-se os escravos e levava-se embora o ouro. E em torno dele fixou-se uma secular tradição etílica de produção e consumo de cachaça, a bebida brasileira por excelência. Esta é fabricada em quase todo o País, mas no eixo Paraty (RJ)-Januária (MG) se encontra sua tradição viva.

Estrada Real da Cachaça é um documentário a um tempo poético e antropológico que dá voz, entre outros, aos descendentes de escravos para quem a bebida se integra a uma rotina dietética e até religiosa. Nos cultos afro-brasileiros ou nas festas cristãs, a cachaça cumpre um papel primordial. Por meio dela, com ótima fotografia e excelente edição de som, visualizamos um Brasil em estado bruto, mestiço e sincrético. Mais que um libelo à bebida ou um road movie, traz uma coleção de vestígios materiais, imateriais, canções, costumes e lembranças de uma pequena multidão de brasileiros anônimos que tem na “marvada” um importante fato cultural. – MAURÍCIO TAGLIARI

Estrada Real da Cachaça, direção de Pedro Urano

No ringue da televisão
A trajetória de Dinho, Samuel, Sérgio, Júlio e Alberto condensa como poucas a intrínseca efemeridade do pop. Entre a “descoberta” do quinteto de Guarulhos, quando trocaram letras melancólicas por piadas irreverentes, ao acidente que chocou o País, em 1996, não levou um ano. Deu tempo de vender mais de 2 milhões de cópias do CD homônimo, viajar o Brasil inteiro embalados por fama e dinheiro e, justo ao conquistar o almejado jatinho, com ele cair para a morte.

“Isso vai explodir”, disse o produtor Samy Elia quando teve em mãos o material que os levaria à glória. A banda era uma mistura de metais e sacanagem, estripulias no palco e o belo rosto de Dinho. Ainda que os empresários jogassem o disco fora, o grupo foi em frente, até chegar às telas. Aí fica claro como os Mamonas alimentaram um capítulo polêmico da tevê brasileira, quando a disputa por ibope entre SBT e Globo era uma guerra de foices. Com a banheira do Gugu rivalizando com as meninas seminuas do Faustão, o fiel da balança eram eles. Um domingo aqui, outro lá, com Dinho de cueca beijando a namorada ou todos vestidos de Chapolim, a audiência explodia. É o que o documentário de Cláudio Kahns traz de melhor.

Longe de ser uma obra-prima do cinema, o filme lança luz sobre a história
de uma banda que dominou rádios e tevês nacionais com uma fórmula que traduzia o momento no qual o País carecia de um rumo. E a tevê, de limites. Já os Mamonas só queriam se divertir. Boa parte do filme é de registros do grupo, como na primeira viagem aos Estados Unidos, onde destilam acidez na ida ao hotel, fazem guerra de extintor e reclamam da falta de feijão. Intimidade que aproxima o espectador da banda e prepara para o grand finale: uma lasca da comoção que tomou o País, transformando-a, com a -mão da tevê, deles tão dependente, em um fenômeno midiático igualmente sem precedentes. Foi ascensão e queda num átimo. – WILLIAN VIEIRA

Mamonas para sempre, direção de Cláudio Kahns

Repulsa ao crime
Desde seu início, Vênus Negra, filme do diretor francês de origem tunisiana Abdellatif Kechiche, com estreia prevista para a sexta 17, determina ao espectador uma posição de nivelamento ao fato relatado e às pessoas que nele se integraram. Busca assim o incômodo, e o alcança nas 2 horas e 40 minutos de exibição, tanto mais porque trata de passagem aberrante hoje e vista como normalidade então.

No século XIX, a sul-africana Saartjie Baartman era exibida como atração de espetáculos de feira. Negra, de corpo voluptuoso, permanecia presa numa jaula, corrente ao pescoço, diante da plateia. Depois passou à curiosidade de festas de ricos parisienses, tornou-se prostituta e foi vendida por seu empresário ao Museu do Homem, onde não aceitou ter as partes íntimas estudadas. Sarah, como foi rebatizada, morreu em 1815 de pneumonia e sífilis e passou à história como a Vênus Hotentote.

Para denotar o caráter repulsivo da história, Kechiche faz longas tomadas de exposição do corpo de Sarah, ajudado pela ótima interpretação da atriz cubana Yahima Torrès. Filma muitas vezes suas apresentações em tempo real. A intenção, confirmada pelo diretor, é incitar a um jogo de olhares, no qual o do espectador se presta à fascinação provocada pela Vênus, como um voyeur. O recurso gerou polêmica no Festival de Veneza do ano passado. “Isso era necessário para mostrar o esgotamento desse corpo até sua deterioração final”, justificou o cineasta. Pela via da exacerbação, Kechiche (O Segredo do Grão) incomoda e gera impacto. – ORLANDO MARGARIDO

Vênus Negra, direção de Abdellatif Kechiche

Convulsão em cena
A informação que nos chega sobre as atuais convulsões políticas nos países árabes nos falta sobre a produção cinematográfica destes. É para procurar sanar a ausência que a Mostra Mundo Árabe de Cinema chega à sexta edição com 15 longas inéditos. São filmes independentes como Microphone, do egípcio Ahmad Abadallah, sobre a cena musical alternativa de Alexandria. Também de estreantes, a exemplo de Dima El-Horr, que dirige a coprodução franco-libanesa Todo Dia É Feriado, sobre mulheres em visita aos maridos na prisão. Uma delas é interpretada por Hiam Abbas, atriz de carreira internacional. Painel mais ambicioso, Fora da Lei, de Rachid Bouchareb, cutuca a relação entre França e Argélia na colonização. O filme teve seu naco de polêmica no Festival de Cannes e ganhou indicação ao Oscar. – ORLANDO MARGARIDO

6ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Até o dia 29 de junho no CineSesc, Centro Cultural São Paulo, Cinemateca Brasileira e Matilha Cultural. Site: www.mundoarabe2011.icarabe.org