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As linhas da ironia

por Rosane Pavam publicado 19/05/2011 18h44, última modificação 19/05/2011 21h35
Livro de memórias e exposição no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro refazem a trajetória do ilustrador Saul Steinberg. Por Rosane Pavam
As linhas da ironia

Livro de memórias e exposição no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro refazem a trajetória do ilustrador Saul Steinberg. Por Rosane Pavam

Saul Steinberg mora nos detalhes. O tema do artista é a beleza, e também a dor, inerentes à vida comum. Morto aos 85 anos, em 1999, naturalizado americano em razão de uma guerra fratricida, a Segunda Mundial, o desenhista romeno usou o humor para combater o desastre. Reflexivo, opôs a crítica ao estado de coisas a um irônico exercício de traço. O efeito de sua obra original foi o de quase desaparecer sobre o suporte branco, cartolina, cartão ou rolo de papel. Uma sofisticação até então impensável. Contudo, o mais influente desenhista do século XX, responsável por dar à revista New Yorker a cara de Steinberg, achava que ser erudito era coisa para trouxas.

Está escrito no estupendo, porém curto, Reflexos e Sombras, nascido da escrita compartilhada com o italiano Aldo Buz-zi e agora lançado pelo Instituto Moreira Salles (184 págs., R$ 45): “Minha evolução começou de baixo, dos cartuns. Aprendi trabalhando e consegui escapar de alguns becos sem saída, vulgaridades do desenho humorístico e banalidades da arte comercial, conservando sempre um pouco desse elemento de mediocridade, quase de vulgaridade, que não quero abandonar, pois o julgo necessário, à maneira de alguém que, mudando de classe social, não quer se separar da mulher e dos velhos amigos”.

Seu desenho começava pelo chão das coisas. E ele queria ser mais do que inventivo com eles. Quando estudante de Arquitetura, durante uma viagem a Ferrara e a Roma, compôs um desenho de observação pela primeira vez. Até então, ele apenas criara cenários imaginários, já que não tivera uma educação artística profissional. Contudo, durante a viagem, desejou conhecer a natureza, “a verdade da realidade”, e reproduzi-la. Era preciso ser cúmplice do que ele via, mesmo se tratando do pior.

Em Reflexos e Sombras, Steinberg traça a origem de seus interesses desde a infância. Ser criança na Romênia era não possuir brinquedos nem mesmo nome. “Ia para o liceu levando uma placa numerada, feito um automóvel.” Steinberg tinha no desenho uma pena, como hoje alguém adotaria a câmera de fotografia do celular para narrar a vida. Um escritor sem ilusões, porém. O que ele julgava róseo não estava no ambiente campestre, nem o que era bruto, na violência da prisão.

Sua fala, muito bem editada pelo amigo Buzzi, a quem conheceu em Milão, nos anos 30, surpreende, até machuca, um leitor. “Minha infância, minha adolescência na Romênia foram mais ou menos o equivalente a ter sido negro no estado do Mississippi.” E exemplifica: “Havia moças que desciam das montanhas para trabalhar como criadas e eram tratadas como selvagens, como escravas”. Eram a carne dos bordéis, como ele diz, e elas muitas vezes se suicidavam. “Encharcavam-se de querosene e acendiam um fósforo.”

Sua família de artesãos incluía pintores de placas que imitavam a arte francesa do cotidiano. A referência iconográfica de Steinberg não passava disso e do feliz conhecimento da obra dos mestres por meio de reproduções de suas telas em caixas de pão ázimo. Jean--François -Millet- (1814-1875) era o campeão das embalagens. Ele pintara a vida humilde campestre e fora copiado também por Vincent Van Gogh. E, quando tudo se inicia em Millet, ainda resta uma chance.

Steinberg deixou a Romênia porque sobre ela pairava a ameaça dos pogroms. Em Milão, foi estudante universitário e conheceu não a cidade, mas a solidão. “Vivi oito anos na Itália e, contudo, não vi grande coisa do país. Mesmo de Milão eu só conhecia um pedaço.” É que ele buscava o amor, sem o conseguir. Na primavera de 1940, fugiu de quem desejava prendê-lo por razões políticas, escapando de casa em sua bicicleta nas primeiras horas da manhã, período em que as capturas se davam. Um dia conseguiram pegá-lo e ele foi para San Vittore, uma prisão clássica. Mas, por causa da idade, tudo aquilo que seria brutal em um cárcere lhe pareceu aventureiro. “Não era mais um leitor de romances, mas, sim, como sempre desejara, um herói de verdade”, ele conta. “E via realizar-se aquele momento em que o sonho se faz realidade.”

Da Itália foi a Washington, nos Estados Unidos, para atuar como artista residente do Smithsonian Institute. E achou que a cidade não era moderna coisa nenhuma. Mais se parecia com a Noruega ou a Albânia. A temporada foi das mais estranhas de sua existência. “Em Nova York, você conhece o senador Javits e basta. Em Washington, conheci os protagonistas da vida política americana: ministros, secretários de Estado, jornalistas famosos, embaixadores. E suas mulheres, todas perfeitamente educadas para a vida de salão”, conta. Sua visão dos três meses passados na capital do mundo, em 1966, evoca a rispidez demolidora da escritora Carson McCullers. A harmonia americana pintada e celebrada, ele concluiu, era uma farsa. “Foi contra esse mundo que se fez a revolução dos hippies, da nudez, da violência, sobretudo.” De toda a América, Steinberg salvava a profunda, do grande interior, e a do beisebol.

Será sua temporada americana, entre os anos 1940 e 1950, a mais prestigiada por aquela exposição de 111 desenhos a ocorrer entre 28 de maio e 21 de agosto no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, em parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde inicia a temporada paulistana, em 2 de setembro. Saul Steinberg, as Aventuras da Linha exibirá seus trabalhos para a New Yorker, quatro desenhos em rolos de papel para a Trienal de Milão, de 1954, murais com até 10 metros de comprimento, nunca antes expostos em conjunto, e dois desenhos sob inspiração brasileira, Pernambuco, mistura de personagens, bichos e motivos locais, e Grande Hotel de Belém. Ambos são resultantes de sua viagem ao País, em 1952, onde reencontrou amigos de seu período italiano, como a arquiteta Lina Bo Bardi. As obras brasileiras, contudo, não foram realizadas aqui.

A curadora da exposição, Roberta Saraiva, conta ter mergulhado na biblioteca de livros raros de Yale e na Fundação Steinberg, de Nova York, para apreender o melhor do artista. No início, ela pensou em se aprofundar nos anos 50 e 60, mas logo percebeu que as décadas de 40 e 50 foram aquelas em que a obra de Steinberg se viu reconhecida pela crítica, sobretudo pelo mundo dos museus e galerias. O trabalho do artista começou então a ganhar corpo do ponto de vista da escala, extrapolando o tamanho do desenho voltado a publicações. “É o período em que Steinberg entra para a Marinha americana e viaja o mundo observando e relatando a guerra em seus desenhos”, diz Roberta. “Coincidentemente, nesse mesmo período realiza uma exposição de sucesso em duas galerias nova-iorquinas, vem ao Brasil e termina na Europa, consagrado, fazendo um circuito de museus de peso. A exposição no IMS é uma visita àquele momento.”

Não entrará na exposição brasileira sua obra em pintura. Steinberg jamais acreditou firmemente em sua grandeza com pincéis, mas, ainda assim, Reflexos e Sombras ensina que pretendia significar alguma coisa com eles. “O que procuro fazer é dizer com a pintura algo além daquilo que o olho vê. Minhas pinturas, mais que pinturas independentes, são partes de uma bancada, uma bancada de pintor”, afirma o desenhista, que, para a curadora da exposição no IMS, aproximava sua escrita da crônica. Ou, entre nós, mais um poeta viveu?