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Cultura

Crônica do Menalton

As coisas que nos acontecem

por Menalton Braff publicado 09/07/2015 14h46
Um certo conto reapareceu de maneira inusitada

Ontem recebi pelo correio um pacote enviado pela Bamboo Editorial. Tratei de abrir logo, movido pela curiosidade, pois me parecia impossível atinar com as causas da editora para me enviar um pacote daquele tamanho. E foi surpreso que descobri o conteúdo: dez livros iguais.

Recebo livros com muita frequência, mas não num pacotão assim, pensei. Geralmente com um, dois livros. E quase sempre de amigos, só raramente de editoras. Sim, mas dez volumes iguais, que modo mais esquisito de fazer divulgação.

Isto é... escola! Era o título, organizado por Pedro Borges. No subtítulo ainda havia Contos, crônicas e poemas de quem já esteve lá. Bem, então já podia encontrar alguma ligação do livro comigo. Eu estive lá. Quase toda minha vida estive lá. Primeiro como aluno, e pra não usar de falsa modéstia até que um aluno razoável. Por fim, escapei da plateia e me instalei no púlpito, onde atuei até as instituições pertinentes me julgarem merecedor de algum descanso. Taí, pensei, um prêmio mesmo que tardio por ter exercido o magistério por tanto tempo.

Bem, mas e daí? Não bastaria um volume?

Como sempre faço com os livros que acabo de receber, comecei a folhear um dos volumes. Sou leitor de orelha, frontispício, quarta capa, leio os créditos, até a ficha catalográfica eu leio. Li o prefácio, o belo prefácio do Pedro Borges, o organizador, como lá em cima ficou dito. Então eis que fui para o índice, uma das leituras obrigatórias para quem se aproxima de uma obra.

Então o susto.

Lá estava meu nome, depois de um título pra lá de estranho: Meu nome é Rabelais. No primeiro choque, o coice no peito, pensei que era uma brincadeira. De mau gosto, mas brincadeira. Depois comecei a desconfiar de que ando a beirar a loucura. Nunca escrevi uma coisa dessas, concluí.

Resolvi investigar melhor o caso. Fui ler o texto. Não me reconheci na história (era um conto), mas o estilo, as palavras e suas inflexões, o modo de construir um conto, isso tudo tinha minha fisionomia. E no fim do conto, lá vinha um pouco da minha vida.

Aos poucos a memória foi encaixando umas situações antigas. Alguém, no passado, parece me haver pedido um conto de escola, por ter provavelmente desconfiado de que eu a frequentara. Essa foi uma suposição aceitável, pois nenhuma outra me ocorria. E, sim, ambiente escolar, para quem viveu lá dentro, deve ter-me cativado e escrevi o conto.

Pois bem, mas Meu nome é Rabelais, isso já é uma história que não posso contar porque também não sei.

Assim a vida. Por onde passamos deixamos nosso rastro, muitas vezes de flores, outras de espinhos. Nem sempre sabemos onde foram parar nossas sementes. 

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