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Ariano Suassuna morre no Recife aos 87 anos

por Clarice Cardoso — publicado 23/07/2014 18h30, última modificação 23/07/2014 18h33
Autor de "Auto da Compadecida" faleceu nesta quarta-feira em Recife. Suassuna era um dos nomes mais importantes da cultura nacional
Lello Santana/ Flickr Commons
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Autor de "Auto Compadecida" faleceu aos 87 anos

Construir uma arte erudita a partir dos elementos tradicionais da cultura nordestina é o maior legado que deixa Ariano Suassuna e seu movimento armorial. O escritor faleceu nesta quarta-feira, 23, no Recife, após sofrer um acidente vascular cerebral hemorrágico aos 87 anos.

Desenvolvido pelo escritor nos anos 1970, o movimento valoriza o que há de mais marcante nas manifestações populares do Nordeste, como a literatura de cordel, a xilogravura, o canto com rabeca, o teatro de mamulengo e o bumba-meu-boi para encontrar o cerne do que há de mais brasileiro.

É dessa forma que se constroem suas obras cênicas, traço mais conhecido de sua obra, graças talvez à adaptação para a televisão. Mesclam sua origem na literatura oral, nos romances recitados, coloquiais, com o teatro clássico europeu em que Suassuna vai beber. Aqui, também, o erudito encontra o popular.

Se a galhofa é a marca desses personagens dos palcos, a poesia fortemente simbólica e intimista coloca-se diante de mistérios da existência e da finitude da vida com igual densidade.

Nascido em junho de 1927, o ocupante da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras era filho de um ex-governador da Paraíba assassinado durante a revolução de 1930 por motivos políticos.

Em 1943, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco ao lado de Hermilo Borba Filho e, 1947, escreve sua primeira peça, Uma Mulher Vestida de Sol. Em meados dos anos 1950, dedica-se ao direito sem, contudo, abandonar o teatro. É neste momento que escreve o texto mais popular do teatro brasileiro moderno: O Auto da Compadecida.

Ex-professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco, foi também membro-fundador do Conselho Federal de Cultura. Nessa toada, na ficção, escreveu o consagrado Romance d’A Predra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta e História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana. As obras, em sua definição, são o melhor exemplo do romance armorial-popular brasileiro.

Onde se passa a cavalgada de a Pedra do Reino, Suassuna construiu, em São José do Belmonte (PE), construiu um santuário ao ar livre composto por 16 esculturas de pedra, com 3,50 metros cada uma, que representam o sagrado e o profano.

Sobre a vida na política - foi convidado a participar como vice de Lula em 1989 - afirmou em entrevista a Carta na Escola, de CartaCapital: “Eu jamais faria essa loucura, está certo? (risos) Eu não tenho competência nenhuma para ser nem presidente, nem ministro, mas tenho a convicção absoluta de que o problema fundamental, antes do educacional, é o da fome”.

Entre 1994 e 1998, Suassuna foi secretário estadual de Cultura de Pernambuco durante a gestão de Miguel Arraes, cargo que voltou a ocupar quando o neto deste, Eduardo Campos, era governador, em 2007. Agora, que ele concorre à presidência, Suassuna ajudou na elaboração do programa de governo nas áreas de cultura e educação da campanha de Campos, apoiando sua candidatura.

As leituras que fez quando menino de Euclides da Cunha marcaram mais que sua obra, mas também sua obra de ver o mundo até os últimos dias. Canudos de Os Sertôes, ele dizia, seguia repetindo-se à exaustão no Brasil que vivemos hoje. “A mesma dilaceração que havia em Canudos há na cidade, entre nós e a favela. Veja bem, eu não idealizo o povo brasileiro. Em Canudos havia ladrões de cavalo, assassinos, do jeito que hoje na favela tem traficante, bandido. Mas a maioria da população, em ambos os casos, é ordeira e trabalhadora. Quando vejo a polícia cercando as favelas, vejo o povo real de Canudos.”